Impressões Amazônicas 30

Impressões Kaiapó

Aos poucos, na medida que permaneço trabalhando com os kaiapós vou me familiarizando com seus nomes e o que antes parecia impossível de guardar começa a se tornar simples como deveria ser. Consigo associar nomes aos indígenas, reconheço nomes iguais em diferentes aldeias e tento descobrir o significado. Alguns nos soam “familiares”, embora sua tradução não seja a que imaginamos. Mikhim não é nome de macaco, Tazam não tem nada a ver com o senhor das selvas e Pitibu não é cachorro bravo. Um dos nomes que sonoramente mais gosto é Matmare. Ou gostava, até descobrir o seu significado, contado de forma séria pelo próprio possuidor do nome: tripa de arara.

Muitos nomes tem os significados bucólicos que imaginamos em nossos índios idealizados. Há “campo limpo”, “brilho do sol”, “canto do sapo”, “cabelo de boneca” e nome de animais como Payakan, que é um passarinho ou Makti (escorpião grande) e Kapranpói (jabuti grande). Apesar disso há nomes que ao nosso olhar soam bizarros, como o citado Matmare e Tekreruti (bunda comprida). Tekre (bunda) inclusive é prenome de vários índios. O mais diferente de todos foi o Bepó. Perguntando o significado ele explicou que é o nome das peças de jeeps e caminhões. Bepo é marca comum de farol-de-milha e bagageiros.

Todos aqui tem o sobrenome Kaiapó. É até engraçado, pois em uma aldeia onde estive recentemente, Kôkôkuedja, os fundadores, Dona “Maria” Bekwoiti Xikrin e o Cacique Motu Xikrin, como o sobrenome indica são Xikrin, mas mesmo assim seus filhos todos tem o sobrenome Kayapó. Na verdade Xikrin e Kaiapó, assim como Txukarramãe são todos Mebengokrê – povo do buraco do rio, e as diferentes denominações quem deu, erroneamente foi o branco ou tribos rivais.

O acesso às aldeias que atendemos é quase todo feito por via aérea (das 11 aldeias, apenas em uma chego por via terrestre). Com isto qualquer medo de voar vai embora fácil, afinal, especialmente na época quente, os monomotores teimam em chacoalhar bem mais do que nossos estômagos gostariam. Quem está na cauda então, a cada rajada de vento vai lá em cima e volta, ou, pior, vai lá em baixo antes de subir de novo. Um susto que faz muita gente gritar e a Raimundinha, minha auxiliar, mesmo com anos de aldeia ir rezando o tempo todo. Vou contar uma história que mostra as dificuldades de vôo aqui. Eu hoje deveria sair ás 8:30h de Redenção, mas só fui pego em casa ás 10:45h. Cheguei no aeroporto e não tinha ninguém ainda lá, nem avião, nem outros passageiros. Ás 11:00h chegaram a enfermeira e a Raimundinha. Ás 11:20h… nada de avião, mas começou a chegar um monte de indígenas. Quando o avião chegou, tinha tanta gente, tanta carga, que nós, da saúde, ficamos de fora.. justo quem era mais importante, mas… mas vocês não tem idéia da dificuldade de fazer um kaiapó se mexer quando empaca. Imagine tirar uma família e um monte de carga de dentro de um avião. Por fim, depois de uma longa negociação e de outro avião se preparando para sair os índios deram espaço para nossa equipe que levantou vôo depois do meio dia… quase 4 horas de atraso.

A aldeia onde estamos é Kubenkanhkrenh, conhecida como KKK, a mais bonita dos kaiapó (lembrem-se sempre que se grafa a etnia sem plural), pelas cachoeiras imponentes que o Riozinho forma. Fotografei de cima, o piloto desviou para isso, e espero amanhã poder visitá-la mais de perto.

Ao chegarmos fomos pegar água no rio, pois a bomba do posto está queimada. O rio é o mais bonito que já vi por aqui, com água transparente correndo sobre um lajeado. No caminho, para minha alegria, via a primeira cobra solta que encontro nestes anos de aventura amazônica. Na volta, chuva, chuva, chuva…

Cachoeira de KKK. “O” lugar! Não porque o rio se chama Riozinho porque a vazão de água é enorme e a cachoeira maravilhosa. Só tive tempo de ir à primeira queda, mas já fiquei satisfeito. Que lugar! Que lugar! Embora o volume seja enorme, há trechos em que o banho não é convidativo, é obrigatório. Fico pensando no privilégio de estar em um lugar como este. Compensa até a montoeira de piuns que quase causa anemia de tanto sugar a gente.

Pela manhã fui à casa de um índio idoso. É engraçado, toda casa de kaiapó tem cachorros, periquitos, araras (quando não são comidas são animais de estimação) e muita sujeira. Na verdade talvez esteja sendo preconceituoso, pois a sujeira se confunde com a fuligem da cozinha a lenha e com manchas de jenipapo, pois aqui todo mundo está sempre pintado. A comida é feita no quarto, o que impregna o ambiente. Imaginem um senhor acamado em um quarto cheeeeeio de fumaça, com restos de sabugo de milho, farelos de pão e biscoito sobre uma cama com um colchão que seria melhor substituído por um papelão. Dureza…

Bem diferente da casa de outro ancião, o Irebê. Embora tenha uns 70 anos, portador de hepatite C que insiste em não se tratar, ele não pára. É o primeiro a me receber no avião e demonstrar grande alegria, pois era eu que tratava dele na cidade quando estava muito ruim. Pergunto como ele está e diz que está bem, carregando mandioca, caçando tamanduá, arara, porcão, tudo com as flechas que ele mesmo faz. E logo vem com as flechas e arcos para vender ou trocar por comida, pilha, calça. Depois vem com cocar, colar, pulseira… “fazemos qualquer negócio”. E ele além de bom negociante é sutil. Às vezes chegava como quem não quer nada para pedir um pouco de óleo e dizia… “Carne vai bem com arroz… não tem arroz por aí?” ou então olhava para minhas calças e falava… “Calça bonita! Aqui muito pium. Não tem calça sobrando Doutor?” Nem que tivesse, pois o Irebê é bem mais alto do que eu, mas não deixava de sorrir. Eu perguntei se não tinha mais gente que fazia artesanato, e ele respondeu que pouca gente. “Os mais novos estão muito preguiçosos. Não querem nada”… E lá ia Irebê bem humorado juntando seu dinheirinho e ganhando, quando fomos embora, tudo que restou dos mantimentos.

Até a próxima amigos,

Altamiro

Fotos:

Riozinho cheio

Vejam o volume de água

Riozinho seco

Criançada brincando. Acreditem ou não, mas o lugar é o mesmo.

Irebê, o índio artesão.

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1 comentário Adicione o seu

  1. MAria disse:

    ola adimiro muito vcs indios povo trabalhador,vcs sao muito lindo suas culturas as mulheres sao maravilhosas e puras de coracao;bjs e que Deus os a ajudem a afastar o homem mal de vcs bjsssssss

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