Impressões Amazônicas 34

Jan 2007 – São Félix do Xingu

Adoro a sensação de liberdade que uma viagem proporciona. Alguns momentos chegam a ser mágicos e acabo registrando como eternos dentro de mim. Esta semana fui a São Félix do Xingu. Oito horas de viagem para percorrer pouco mais de 300km, ficar pouco mais que algumas horas e voltar. Duro, não? Com certeza, ainda mais se imaginar que o trecho final, de 100km de terra, seriam percorridos por quatro pessoas na parte de trás de uma nissan. Acha a pick-up enorme?? Pois não é…Felizmente o Cacique Horácio ao ter que quase sentar no colo de outro companheiro de viagem parece ter percebido que poderia perder sua invencibilidade no trajeto e desistiu de nos acompanhar. Assim lá fomos nós: eu, o coordenador de uma ong que deve mudar de município, a coordenadora técnica de onde eu trabalho e o Cacique Pinká avaliar as condições médicas do município. O mais difícil foi manter a pose todo vestido de branco-barro (conhece esta cor?) para a inspeção, mas no final tudo deu certo. Além de visitar tudo ainda pude conhecer o famoso Xingu e comer um delicioso tucunaré.

A cidade, segunda maior do Brasil (em termos de área perde apenas para Altamira), é daquelas bem de fim de mundo, pois dali não se sai para nenhum outro lugar que não seja por esta estrada de 100 km de terra ou por avião. De barco são pelo menos dois dias até a cidade mais próxima. Lá eu vi um caminhão passando com duas enormes toras do que até poucos dias antes era uma árvore certamente centenária e onde se diz que se morre muito por pouco – frase dita por um dos médicos do hospital. Terra, garimpo e, recentemente pecuária e agricultura trazem dinheiro e gente a esta cidade que apesar de distante de tudo tem uma boa estrutura médica e de comércio. Fica faltando somente diversão e, para os aficcionados… o celular. Nenhuma operadora ainda se arrisca por lá.

Nota: Cerca de um ano após eu ter escrito este texto, São Félix do Xingu foi listado como um dos municípios que mais desmata no Brasil. Não deve ser coincidência também o fato de ser um dos municípios com maior número de homicídios per capita do Brasil e com vários registros de trabalho escravo.

Fev 2007

Aldeia Kokraimoro

Estou novamente a beira do rio Xingu, na aldeia Kokraimoro, onde me banho neste rio mítico. Ele pode não ter a fama do Amazonas, a importância do Velho Chico, mas o Xingu é o Xingu. Nos faz pensar em quarup, em primórdios do indigenismo, em um território selvagem que hoje já foi completamente civilizado, mas também em uma explosão de natureza. É ótima a proximidade do rio, mas… rio atrai mosquito, e os daqui, embora não sejam muitos, são mais próximos a gaviões do que ao mal afamado mosquito da dengue. Estou até com medo de um me seqüestrar … Apesar disso, pior do que os mosquitos são os piuns. Os mosquitos são inimigos visíveis e conhecidos.

Se você não sabe o que é pium… Os piuns parecem fantasmas, pois quase não os vemos, mas atacam o dia todo… o que nos obriga a usar roupa comprida e meia com todo calor que faz. Eles podem ser um pouco maior que este ponto “.” ou um pouco menor do que este “o”. Não fazem barulho, não zumbem. Chegam discretamente e pousam tão suavemente que você só percebe sua presença por uma sensação de queimadura ou ardência associada a vermelhidão, que nos alérgicos vira logo um “calombo”. Das experiências amazônicas, esta é a que eu mais contra-indico.

Esta aldeia ficou famosa, por aparecer na Globo porque os índios não estavam sendo atendidos pela FUNASA. Eles eram atendidos por outro Distrito indígena e agora passaram para o nosso. Há mais de seis meses não tinham atendimento médico, mas mesmo assim é uma aldeia bem de saúde. Talvez porque é a primeira aldeia que visito onde todo mundo trabalha. Tem pesca, muita roça, torram farinha, caçam, diferente de outras aldeias onde os índios ficam esperando o dinheiro cair do céu. Aqui as crianças são gordinhas (não vi um único desnutrido) e realmente fiquei feliz.

Conversei também com um dos pajés, muito simpático. Ele havia acabado de realizar uma prática que ainda não tinha assistido. Ele esfrega dentes de traíra nos braços de meninos pré-adolescentes, formando riscos longitudinais. Estes riscos cicatrizam e formam traços nos braços, como tatuagens em relevo. Enquanto não cicatrizam, as feridas ficam sangrando. Aliás, eu vi várias crianças com tatuagens caseiras, daquelas feitas com caju ou caneta, mas que ficam definitivas. Estrelas, corações, pontos na testa, letras, nomes, mas tudo bem feio e, infelizmente, de forma definitiva. Lá eu pude apreciar a coragem de um auxiliar de enfermagem. Totalmente “em casa”, o Acles chegou a fazer, literalmente, sua “tribal”… uma tatuagem feita por um indígena com uma máquina que não sei de onde eles fizeram surgir.

Embora eu tenha visto estas tatuagens, acho que foi a aldeia onde as crianças estão menos pintada de todas que já estive, e as pinturas são menos elaboradas. Em compensação são as mais enfeitadas, com aquelas pulseiras, colares, brincos e enfeites diferentes e multicolores. Realmente me fez recordar que desde que cheguei aqui chamava os kaiapó de índios fashion. Aqui também é a primeira aldeia onde encontrei mulheres sem os vestidos tradicionais de nira. Não todas, mas pelo menos umas cinco, o que é muito, considerando que eu nunca tinha visto nenhuma assim fora da cidade. Aliás, as meninas aqui também andam mais sem roupa do que em outras aldeias, e vi várias adolescentes já com seios bem crescidos e brincando correndo somente de calcinha.

O pajé com quem conversei não foi como o de Moikarakô, última aldeia onde havia estado. Lá o pajé me pediu ajuda para conseguir um salário para os pajés. Ele me disse que, como eles trabalham muito precisam receber bem, mas que para ele dez mil reais seriam suficiente. Imagine só… Ele explicou que dá muito trabalho andar na mata para pegar folhas, preparar chá, chamar os espíritos, e ainda contou que é necessário muito estudo para ser pajé. Dentro da hierarquia deles o pajé começa como aprendiz, vira auxiliar e só então passa a ser um “profissional”, que, por aqui, são muito mais respeitados do que qualquer médico.

Além disso, se você acha que especialização é uma invenção de nossa modernidade, que se espalhou pelos médicos e agora se difunde entre os odontólogos, está enganado. Saiba que a especialização na saúde também é algo tradicional entre os Kaiapó. Os pajé tem diferentes especialidades. Existem os especialistas em osso (fratura, torsão), os que impedem a mulher engravidar (pouca eficácia, pelo que pude perceber), os que “tiram veneno de animais”, e pode ser de cobra, sapo, jabuti (você não sabia que jabuti envenena???). Se você for no pajé errado, o tratamento pode não surtir efeito, e não será culpa dele. Além da especialização, da mesma forma que para nós, medicos, pajé também recebe pagamento… e cobra caro. O pagamento pode ser em dinheiro ou em comida, caça, e nunca é pouco. Tem famílias que tem que trabalhar um tempão para pagar um tratamento.

Como não recebo tanto assim… tenho que suar para ganhar o meu… hora de ir.

Grande beijo, e abraço! A saudade de vocês está tatuada em meu coração,

Altamiro

Fotos:

1 – Placa da Aldeia Kokraimoro – Fica em um monte próximo a aldeia. Notem o idioma usado… e o nome ocidentalizado do Cacique. Isto é bem raro aqui.

2, 3 – Fotos do rio Xingu… crianças brincando e a técnica de enfermagem mostrando que o rio tem mil e uma utilidades.

4 – Vista aérea… aldeia, pista, rio… do “lado de lá” da pista, o posto de saúde, escola e casa do professor.

5 – Robinson, um grande amigo, com os Kubut (macaco) e Kukoi (guariba – é o da frente, alaranjado). Estas são máscaras “kôkô”, usadas pelos rapazes.

6 – John Travolta incorporando no curumim.

7 – Eu e Lídia trabalhando!

8 – Na passarela Miss Kokraimoro. Todo ano a aldeia escolhe sua miss para participar de concurso em São Félix do Xingu.

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1 comentário Adicione o seu

  1. DIVINO disse:

    GOSTARIA TRABALHA NA ALDEIA

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