Impressões Amazônicas 35

Aeroporto de Ourilândia do Norte

Mais uma cena que me surpreende. Chego ao aeroporto quando saem vários índios Xikrin (grupo familiar dos Kaiapó, – são aqueles que invadiram há dois anos a Vale em Carajás) direto para o ônibus. Particular deles!! Com motorista e identificação visual própria. No aeroporto me informam que foram cinco aviões trazendo o pessoal que vai receber aposentadoria em Marabá. Para quem tem dinheiro não existe mesmo cor, sexo e nem etnia…

Kriny – Abril 08
S 07º 24’ 94,0’’
W 50º 55’ 19,0’’

Cheguei na aldeia e logo percebi algo diferente. Não haviam homens – cacique, pajé, agentes de saúde, lideranças. Todos, com exceção de uns 3 ou 4, estavam na cidade, pegando palha de buriti. Para cobrir as casas? Não, para a confecção de máscaras Kôkô (assim mesmo, com dois acentos). Elas, como todo objeto de palha trançada (cestos, tipóias de carregar bebês – aim, adornos, etc.) são elaboradas pelos homens. Im dos indígenas me levou para ver as máscaras Pàte, um dos tipos de máscara (Pàte é o tamanduá, as outras são Kukwoi – macaco prego e Kybut – guariba). Estas máscaras são especiais, sempre em número inferior as demais e elaboradas na mata por guerreiros que passam dias preparando-as. Até o dia da festa são guardadas, e para não estragarem pela umidade ou mofo são regularmente retiradas para o sol para secaram.

O responsável por todos preparativos, que convoca os outros homens para o trabalho, se responsabiliza pela comida. Este é o anfitrião, conhecido por “dono da festa”. Desta vez são três, e suas famílias já reúnem a frente de suas casas pilhas de madeira e montes de pedras que são usadas para assar os alimentos. Mandioca, batatas e batatas-doce são armazenadas. Ao regressarem, após as máscaras ficarem prontas, os homens sairão para caçar e pescar. Enquanto isso as mulheres vão preparar os últimos adornos de miçanga e por fim, finalmente a festa, momento grandioso que pode durar dias ou semanas, de acordo com os preparativos e posses do “dono da festa”.

Esta vai ser uma festa grande, e já chegaram convidados de três outras aldeias: Kranh-Apari, Aukre e Gorotire. Todos se envolvem, não havendo privilégios ou regalias por serem “de fora”, afinal, são todos parentes. Assim os homens estão “na palha” e as mulheres na roça. A roça produz bem em Kriny. Por todo lado vemos ramas de abóbora e yàt, a batata doce. São vários tipos de tubérculos que eles plantam, além da mandioca, inhame, cará e batata. Ao contrário do que se pensa, a mandioca não era o alimento indígena universal. Para os Kayapó ela foi uma novidade surgida com os brancos. O alimento central de sua cultura era a batata doce. Hoje, em compensação, o seu prato tradicional é o berarubu, feito de mandioca ou milho ou banana verde. É feito de massa de mandioca assada na brasa e na pedra, podendo ser recheado de peixe ou carne. Ao nosso paladar é diferente, pois falta tempero, não levando nem mesmo sal.

Nesta aldeia mora o Cacique Kagnonk. Ele é hoje, nesta região, respeitado como o principal dos “caciques velhos”, aqueles que já não tem seu posto, mas mantém a moral e o respeito de todos. Pela identidade são oitenta e três anos, mas a idade não é precisa, pois quando nasceu “não existiam brancos (kuben)”. Seu primeiro contato com um foi “quando era deste tamanho”, me diz fazendo com o braço um gesto que parece indicar uns dez anos de idade. Conversando comento: “E como o mundo mudou, não cacique?” Ele me responde com sua expressão sempre serena de quem parece já ter vivido de tudo: “É doutor… Depois só índio matando kuben e kuben matando índio”.

Comentar o que? Os brancos chegaram “passando o rodo”. Para “amansar” (termo usado na época e hoje ainda em uso pelos mais antigos, junto com o termo “índio brabo”) os mais bravos, dentre eles os aguerridos Kayapó, uma missão foi construída onde hoje é a cidade de Conceição do Araguaia, a margem do majestoso rio que lhe batiza. Segundo o cacique Kagnonk, lá era “terra de índio”, com muitos Kayapó e com Karajás nas praias mais distantes. Nesta época os mebengokré eram divididos em três grupos. Dois optaram por não manter contato com os brancos. Destes um originou os Xikrin e outro os Kaiapó, que se ramificaram em vários pequenos grupos (o famoso Raoni é de um destes grupos, os Txukahamae). O terceiro grande grupo, Irâ’ Ãmranh-re, de cerca de 3000 índios, preferiu o contato pacífico do que se aventurar pelo sertão, fugindo e lutando. Foram extinto pelas doenças de branco e pela “pacificação”. Destino semelhante a inúmeros povos em todo o Brasil.

Onde hoje é a igreja principal de Conceição, antes era a “maior de todas as casas do Guerreiro”, segundo o cacique. Talvez as lembranças de uma distância distante tenham colocado uma lupa de nostalgia e ampliado o tamanho e grandeza desta “casa do guerreiro”, mas esta era a tática da igreja. Desmoralizar, destribalizar, substituindo os valores tradicionais pelo valor cristão. A igreja na casa do guerreiro diz: “nós somos maiores do que você, e viemos substitui-los”. Sem uma base própria, incorporando ideais pervertidos de igualdade, fraternidade a amor – afinal, isso valia apenas para os brancos, mas não para os indígenas, que podiam, e deviam, apenas ceder: suas terras, seus filhos, suas mulheres. Para muitas etnias restou apenas o caminho da marginalização e do preconceito do pior tipo: o auto-preconceito. Auto-estima baixíssima, só hoje recuperada por esforços de antropólogos e indigenistas que reconhecem o valor de sua individualide e os anos de destruição física, material e moram a que os índios do Brasil foram submetidos.

Por isso é tão bom trabalhar com os Kayapó. Eles podem ter seus problemas, mas são arrogante e orgulhosamente Kayapó. Se sentem felizes com suas festas, enfeites, nomes, cabelos, de uma forma que nem nós somos com nossas origens. E você? Sabe a história de sua família?

Falando em nome, uma pequena história antes de me despedir. Atendi um paciente chamado Mryprire. O significado? Carne pequena ou Carninha? Você gostaria de ter um nome destes?

Boa semana!

Altamiro

Fotos:

Início: Aldeia Kriny – Percebam que o lado esquerdo tem bastante casas. A parte inferior tem poucas, por ter sido vítima de um incêndio em meados do ano passado.


1 – Tubérculos – Base da alimentação


2 – “Pescadores” garantindo o almoço!


3, 4 – Máscaras de tamanduá “pàt”, em sua “fábrica”, dentro da mata, e secando ao sol, para evitar umidade.


5 – Eu sendo pintado por Nhaktat

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1 comentário Adicione o seu

  1. Helen Veloso disse:

    Estou viciada nas IA ainda não tinha visto alguém descrever nossos costumes tão bem, muitas pessoas conhecem uma comunidade indígena e já generaliza e você ver as diferenças e as descreve de forma simples, essa reflexão disse tudo auto-preconceito! Beijos

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