Impressões Amazônicas 37

Maio 2008
 
Sim, já me perguntaram. E sim, aqueles são os índios com quem eu trabalho. Os Kaiapó começaram a confusão em Altamira. Tudo bem que eu concorde com eles – ao menos em parte, pois sou contra qualquer tipo de violência. Imagine se alguém resolver alagar parte de suas terras para mandar energia para outro lugar. Solidariedade? Isto é o que historicamente os povos indígenas sempre tiveram com o Brasil, e isto é o que nós nunca soubemos dar a eles. 
 
Ire-O Kaiapó deu até entrevista no Fantástico. Muita gente achou arrogante “Empurrei sim. Só não rasguei nada” Me lembrou até o Bill Clinton, que “fumou sim. só não tragou”.
 
Na verdade os Kaiapó não são arrogantes. São, sim, um povo orgulhoso. Orgulhoso de nunca ter se entregue ao “kuben”. Se não sabem negociar, sabem deixar clara sua vontade, que normalmente é conquistada pelo enfrentamento. Assim eles sempre viveram, preferindo dividir uma aldeia em dois do que argumentar. Algo tipo “ou a gente briga ou vai embora”. Então dá uma “brigadinha” leve e vai embora. 
 
Foi isso que Tuíra Kaiapó fez há alguns anos atrás. Deu uma “brigadinha” e foi embora. Repetindo o hábito dos seus parentes de falar com o dedo no nariz do oponente em um confronto verbal, se empolgou por estar com um facão na mão. Virou manchete em toda mídia e hoje repete o gesto, conclamando seus parentes a lutar pelo que é deles. Agora a mulher vaidosa que usa um relógio digital enorme e está sempre enfeitada, tão sossegada para falar, vai para o Japão, mostrar por lá a forma de dialogar dos Kaiapó, em busca de seus direitos.

Mas vamos falar de coisas mais divertida. Atendi uma índia com nome bem diferente. Tepamak. Sim, vocês vão me dizer, “mas todo índio aí tem nome diferente”. Eu sei, eu sei, mas tep quer dizer peixe. Amak quer dizer orelha. Então ela chama-se Orelha de Peixe. Só não sei que espécie de peixe orelhudo é este.

Hoje também aconteceu uma história engraçada no consultório. Como sempre, haviam uns vinte indígenas dentro. Estava atendendo uma senhora que se queixava de “miomio” – a coceira sem fim dos Kaiapó. Querendo dar ênfase as suas queixas de que havia coceira por todo o corpo, sacou o vestido, ficando só de calcinha, como se fosse a coisa mais normal do mundo. Isto nunca havia acontecido. Atendi mais umas quatro pessoas e eis que outra senhora, que havia presenciado a cena, faz a mesma coisa. Eles nem ligam e eu fingia ser a coisa mais normal do mundo. Atendi mais dois e… outra senhora. Temi o pior, e exatamente como previ, lá foi ela tirar o vestido. Só que esta era mais “cheinha” e, com o vestido mais justo, não era tão fácil retirá-lo. Argumentei que não precisava, que já tinha entendido, mas não houve jeito: enquanto não ajudei a tirar seu vestido, a consulta não prosseguiu.

A forma como eles encaram o corpo é sem dúvida muito mais saudável do que a nossa.

Carnaval 2008

Amapá… foi pouco tempo mas tem muita história para contar, então vocês vão ter que me ler mais um pouco, afinal, como a Beija-Flor descobriu, Macapá dá samba.

Quando forem a Macapá, guardem este nome: Museu Sacaca. Não é nome de japonês, mas de um famoso pesquisador de ervas. O museu é bastante interativo, e quase todo a céu aberto, sem “cara” de museu. Embora um pouco largado, tem muita coisa interessante e as curiosas pedra-fones. O que são pedra-fones? Na verdade nem sei se o nome é este, mas para sonorizar o ambiente sem tirar o aspecto de natureza e os cenários amapaenses que são reproduzidos, há pedras que na verdade são caixas de som, que podem até passar desapercebidos.

Um dos ambientes mais legais de visitar foi o “Regatão”. No Sacaca há um Regatão autêntico, no meio de um rio onde vemos tambaquis e pacus nadando.

Regatões eram os barcos que desciam os rios amazônicos, comprando produtos da floresta e vendendo os industrializados. Era mais ou menos assim: eles compravam ouro a preço de sal e vendiam sal a preço de ouro. Muito legal eram os remédios vendidos. Haviam os infalíveis “específicos” capazes de proteger qualquer pessoa contra cobras, aranhas e outros animais peçonhentos. A bula alertava quer era infalível desde que se conseguisse acertar a dose pelo tempo suficiente, o que não devia ser tão fácil, afinal, uma garrafinha só nunca era suficiente, e quem tinha mais que uma? Além disso medicações como o depurativo Batatão Hypolito – “Aprovado pela Exma. Junta de Higiene do Estado do Pará” e que prometia curar reumatismo, diarréia e até problemas ginecológicos “em geral”.

O Sacaca também tem uma bela estátua que homenageia as parteiras deste que é o estado onde existe a maior porcentagem de partos domiciliares do Brasil. As parteiras são ativas e reconhecidas pela população, sendo bastante valorizada. Aliás, é impressionante o que uma boa parteira consegue fazer, sabendo até virar o bebê que está sentado, antes do parto.

Os barcos realmente estão por todo lado em Macapá, podendo tanto ser loja como estar na loja. Sim, pois a beira rio-mar encontrei um vendedor de cana que usava o barco, na calçada, como no Sul usamos um trailler ou carrinho. E encontrei também barcos de madeira, tipo “montaria” vendidos em diversas lojas, como se vende bicicletas em outras paragens.

Como tudo vai por via fluvial, nada mais normal do que o Samu, o sistema de ambulâncias que o Governo Federal está implantando em todo Brasil ser também aquático. Assim, diversas ambulanchas equipadas podem ser vistas nos rios.

E de rio se chega ao povoado com nome mais difícil de falar que já encontrei em minhas andanças pelo Brasil. Anauerapucu. Tentei mas não conseguir descobrir o que isso quer dizer, mas não tente falar rápido, ou vai acabar saindo palavrão… ; )

Outro lugar que visitamos foi o Distrito da Fazendinha, praia mais urbana, com quiosques onde o pessoal vai saborear camarão com cerveja. Embora a água seja marrom, pelos sedimentos que o Amazonas carrega perto de sua foz, é limpa, e a criançada faz a festa, olhando de longe os navios que entram carregados de mercadoria a caminho de Belém e Manaus…

…e também para retirar a madeira que é exportada a partir do Amapá. Sim, embora o estado esteja preservado, sai muita madeira, e, para minha tristeza, em minhas viagens vi várias florestas de eucalipto, praga australiana exportada para o mundo.

Vou de barco,

Até a próxima,

Altamiro

Mais algumas vistas amapaenses!

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