Impressões Amazônicas 38

12 de junho de 08


 


Dia dos namorados. Isto inspira muita gente a perguntar como é o namoro dos Kaiapó. Com certeza, assim como outros hábitos culturais, este é bem distinto do nosso. As manifestações públicas de afeto são praticamente inexistentes. Raras são as cenas de índios andando de mãos dadas, ficando restritas aos mais jovens, provavelmente por influência televisiva. Beijos eu nunca vi.


O compromisso pode ser firmado na adolescência, oficializando através do casamento, um namoro que já subentende as relações sexuais. Apesar disso não são raros os casos de noivos que fogem na hora do compromisso ou de noivas que nem aparecem, desejando manter o status de solteiros. O noivo normalmente passa a morar na casa da esposa, partilhando da rede e ajudando o sogro nas funções masculinas. Se marido e mulher se desentenderem, principalmente quando jovens, se separam e pronto, não há maiores problemas.


O fato de começar a “ficar” e ir morar na casa do sogro é muito simples, não havendo nenhum inconveniente para isso. Filhos nascidos desta união, embora tenham o pai reconhecido, normalmente são criados pelos avós, sem problema ou constrangimento algum. Avós não são apenas os pais dos pais, mas também os irmãos dos avós, o que nós chamamos de tio-avós


As meninas podem começar a manter relações sexuais desde novas, não havendo uma cerimônia, como as vistas no Xingu, de reclusão feminina. As relações normalmente são com jovens mais velhos, podendo também ser com indivíduos bem mais velhos. Há algumas festas inclusive em que, após o canto e a dança, o namoro é liberado com a seguinte regra: solteiros (normalmente os jovens) “namoram” as casadas e casados “namoram” as solteiras (normalmente as meninas). As relações nestas festas não são encaradas como traição, mas como parte inerente a festividade. Em outros momentos traições, quando descobertas podem acabar em briga ou bate-boca.


Outra coisa interessante é que as relações não são muito demoradas. Dá para imaginar, em uma casa com várias famílias, muitas crianças, não há liberdade para muita coisa. Então é vapt, sem nem ter tempo para o vupt. Dizem que nos tempos do dinheiro as prostitutas adoravam os indígenas, que pagavam bem e nem esquentavam o banco. Já os homens dizem que adoram as “kuben” (não indígenas) porque fazem tudo que as indígenas não fazem. Normalmente as relações são da forma mais tradicional, sem variação ou  preliminares, mas diárias e duram até bem depois da menopausa, com intervalos apenas no pós-parto. Existem algumas etnias, não é o caso dos Kaiapó, que dizem que a formação do bebê só se dá com muito sêmen. Então, para o bebê nascer completo e sem problemas, a mulher deve ter muitas relações durante a gestação, quanto mais, melhor!


 


Como, segundo o poeta, o amor namorando o ódio, vejam como as coisas aqui estão complicadas nestes últimos dias…


 


9 de junho


 


Como tenho dito, os Kaiapó não são chegados a uma “negociação”, no sentido que nós entendemos o termo. Apesar disso, da muita gritaria, da gesticulação agressiva, do falar alto, nunca havia presenciado nenhuma cena de violência física maior. Não tinha. Hoje de madrugada presenciei, se não em corpo presente, ao menos visualizando as conseqüências de uma verdadeira batalha campal. Isto dá bem a idéia de que, apesar de, até certo ponto aculturados, sua forma de pensar, compreender e agir é diferente da nossa, e segue uma linha de raciocínio que não pode ser comparada a nossa. Ao menos não a curto e até médio prazo. Não é melhor, nem pior, é diferente.


Vamos aos fatos. Está acontecendo uma feira agropecuária em Redenção. Os índios também participam do evento: barraquinhas, música, comida, tudo bem típico das feiras rurais que acontecem em todo o país. Acontece que, “não é de hoje Doutor, vem de outros tempos” a briga entre a família do Kroti e a família do Moikô. E alguém da família do Moikô pegou alguém da família do Kroti durante a feira. Como o rapaz é adolescente, a mãe ficou brava, a avó ficou brava, a tia ficou brava (e a tia é a Tuíra, aquela do facão na cara do engenheiro). Resultado: lá foi uma brigada feminina, verdadeiras amazonas em fúria, munidas de facão, foice, porrete, secundadas pelos guerreiros, maridos e parentes, tomar as dores do rapaz. Na casa dos agressores a defesa se preparou. Conclusão: o sangue e os cabelos se espalharam por toda a rua, um índio perdeu dois dedos, uma mãe de 17 anos foi operada hoje para retirada do que sobrou dos ossos do alto da cabeça, violentamente acertados com uma borduna e quase perdeu a perna decepada com um golpe de foice, outra índia tomou mais de 300 pontos (sim, TREZENTOS, não foi um 30 digitado errado) e a Kokorô, uma velhinha querida de mais de sessenta anos está internada com hemorragia craniana traumática.


O que dizer? Como explicar? A violência, dentro da comunidade pode ser aceita? Temos que lembrar que 60 anos atrás não haviam brancos, e assim se resolvia qualquer discussão. Quanto tempo nossa cultura demorou a se habituar com a paz? Habituou mesmo? Não há como atirar a primeira pedra.


 


Mas vamos falar então da alimentação, que é uma característica cultural mais divertida.


Alimentação. Comer,comer… como isso é influenciado pela cultura, não é mesmo? Minha amiga Maria Lucia recentemente escreveu um texto delicioso sobre as deliciosas tanajuras comidas no nordeste (http://www.slowfoodbrasil.com/content/category/5/31/95/ ), e que lembro de caçar na praia com meu irmão para mamãe preparar farofa. Os Kaiapó, ao menos modernamente, não comem nada assim “diferente”, mas tem muitas restrições e crenças. Por exemplo: preguiça não pode ser comida de jeito nenhum, senão… quem come fica preguiçoso. Crianças pequenas de colo não podem comer macaco… ou vão querer ficar agarradas com as mães o tempo todo. Depois que crescem um pouco macaco já faz bem, especialmente macaco-prego. A parte mais importante é o cérebro, que a criança deve comer para ficar ágil. Tamanduá mirim é bom para cair da árvore e não se machucar.


 


Já os pais jovens precisam comer bastante tripa. Não descobri o porque. E quati faz bem para a potência, é o viagra local. Inclusive o homem que já não está lá estas coisas pode passar o myr do quati no seu próprio myr. Acho que nem preciso explicar o que é myr, né? Ah! Para sua segurança, se for tentar a técnica, lembre que o bichinho não pode estar vivo…


 


Fiquem na paz,


Protejam os quatis,


 


Altamiro


 


Fotos:


1 – Mulher preparando a mandioca em Kendjan. Vida dura.


2 – Outra tarefa feminina… dá para entenderem porque há tantas dores nas costas?


3 – Quati brincando em casa. Será que o bichinho é das crianças ou do pai???


 



 


4, 5 – Filhote de mutum que escapou da panela… olha como até a pata é enfeitada.


 



 



6 – Hora da chuva… vamos para baixo do avião!


7 – Que ta um brinco assim?


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