Impressões Amazônicas 4

6 de abril de 2005

Amigos,

São tantas coisas que acontecem aqui, de forma tão rápida que tenho muito a contar. Vou selecionando aos poucos para não cansar a paciência de vocês.

De qualquer forma vou contar que hoje conheci o Cão. Sim, o Cão filho do Nonô. E não adianta perguntar pelo nome porque ele vai responder que o nome nem ele mesmo conhece mais. Também, com os nomes daqui não dá para ser de outro jeito. O Cleber, marido de uma das enfermeiras do Rio estava ajudando na folha de pagamento da prefeitura e falou que chega ordem de pagamento com o seguinte tipo de identificação: Zé do Trator, Nunuca, Jacaré, Negão (este é vereador), Xeruca (outro vereador), Noca, Mariposa e por aí vai… Até em folha de professora vem “Professora Bananinha”. Mas também… com os nomes daqui, melhor apelido. Vejam só, eu já havia jurado não falar mais dos nomes, então pensei em não enviar Geandra e Tilza, mas não resisti a família de uma Agente de Saúde. Vejam só: Billy Graham, Erls Simone, Uiff Linderbergh, Nells Katberg, Guajira Hay. Os primeiros todos tirados de livrinhos de bang-bang. O pai lia, gostava e quando o filho nascia registrava… como lembrava. O último foi em homenagem a canção cubana… Guantanamera. Mas o melhor de todos pela ortografia foi o que atendi hoje: Alequissandro.

Mas não foi por isso que falei do Cão. Ele é da região e foi inclusive da infantaria do exército, hoje é mecanico de motos. Seu pai é ribeirinho e só viu a cidade a primeira vez com 17 anos. Eles contaram que depois que o IBAMA proibiu completamente o corte de árvores legal por aqui e a Reserva Tikuna foi demarcada, aumentou muito o numero de animas da região. Assim, ainda este mês vamos fazer um bivaque na região… Algo que há muito estou esperando. Assim, logo terei informações para contar sobre a amazonia verde que estou procurando.

Apesar de ser rota de tráfico por aqui, os usuários de droga não são muitos. Não há maconha, o forte aqui é o álcool, largamente consumido, e derivados baratos do refino da coca, especialmente o cocoroco. Ontem o pessoal do Rio (são duas enfermeiras, seus filhos e maridos) estavam brincando a noite com as crianças na praça quando de repente passa um rapaz “voando” sendo perseguido por policiais. Na corrida ele solta um pacote que a polícia não viu quando corria atrás dele. Mal a polícia sumiu as pessoas “voaram” em cima do pacote. Até meus amigos foram ver o que era e se surpreenderam com a pedra branca, que é pipada dentro de cigarros.. Os usuários tiram o “miolo” do cigarro, ralam a pedra e colocam dentro do cigarro para fumar. Outra opção é misturar o pó com o tabaco, fazendo render mais… Vivendo e aprendendo.

Hoje também fiz mais coisas interessantes. Uma foi tomar coragem e cortar cabelo. Porque coragem? Bem amigos, vocês sabem que não tenho nenhum preconceito de preferência sexual, mas os caras são muuuuuuito desmunhecantes, alguns usam batons, esmalte, são feios para burro, falam um portuñol enroladíssimo e o que cortou meu cabelo não tirou a “mochilinha barbie” das costas nem por um minuto. Aliás, todos (todas?) usam a tal da mochilinha nas costas… Tô começando a ficar preocupado, pois eu também estou sempre de mochila… Daqui a pouco v’ão desconfiar. Na verdade o cara até cortou bem, mas… passou tanto gel no meu cabelo que depois fui tomar banho e a água batia no cabelo e ia longe… igual campo de força. Me senti a própria Cassandra do Sai de Baixo.

Além disso fui comprar uma rede. Comprei de fibra de tucum. Rede grande, por 40,00. Se chorasse bem baixava até o preço. Aliás, estou vendo onde consigo cordões feitos de fibra por bom preço. Alguém se habilita a revender? Beto, vamos colocar no e-bay?

Vou contar um pouquinho da saúde também. Para os que não são da área.. .risadas… para os que são… partilha do sofrimento…

Semana passada aconteceu uma coisa tão bizarra que tenho que contar…. Me chamaram para fazer uma perícia. Eu sei que isto é algo oficial, e como único médico com CRM na cidade, fui sem problemas. O problema é que queriam que eu fizesse a perícia em um desenho feito a lápis. Até estava bonito, parecia aquelas coisas de retrato falado, mas queriam que eu dissesse que uma jovem de 16 anos havia morrido com um tiro de espingarda nas costas e que isso havia sido sua causa-mortis. É ruim… E ainda acharam estranho eu dizer que só poderia fazer a perícia com o corpo presente. Acho que por aqui é tudo assim… perícia a distância. Amigos advogados… uma luz ao caso!!

Vamos ver quem descobre o que tem estes pacientes.

“O problema é que está colocando touchinha.” – Touchinha é oxiúrus, o verme que causa coceira anal.

“Ele tá ruim. Ele desmancha”. – Está com diarréia

“Espremedeira” – Cólica do bebê

“Provocar” – estar com náuseas, vomitar.

“Dei calmante pro menino” – quase tive um treco até entender que calmante é remédio para febre.

Quando atendi uma criança com atraso mental, provavelmente por problema de oxigenação no parto: “Dr, o problema é que meu marido matou uma cobra quando eu estava grávida e ela se vingou em mim!”.

Outro dia chegou uma criança com pús no pé. “Pois é, ela furou o pé e fui limpar. Vi que tinha sujeira e não usei agulha que é suja. Eu peguei um espinho de rosa para mexer sem ter problema”.

E meu favorito:

“Dr, veja se ele não tem a minhoquinha entupida”. – Fimose

Aqui na região metade dos médicos é colombiano ou peruano. Os peruanos são bem fracos no geral, os colombianos são bons. O problema é que nenhum deles pode ser médico oficialmente aqui porque nenhum tem CRM. Assim eles atendem mais e ganham menos… lógico que quem é bom não quer ficar em um esquema destes não é mesmo? E eu achava que falso médico era problema só da baixada fluminense. Além disso nosso cirurgião é um homem corajoso… Opera tudo. Tudo mesmo: faz colostomia, fixa pino em osso, faz parto, se duvidar até neurocirurgia faz…. Os resultados? Dos que sobreviveram? Aqui eu já vi mais cicatriz longitudinal no abdome do que já havia visto em toda minha vida… Corte em cruz… já viram? Pois é…. Bem, deixa para lá ou eu choro… risos.

Mas podia ser pior… eu poderia ser professor. Estes sim são ecléticos aqui. Eu atendi uma criança que a mãe é professora no “Beiradão”. Beiradão é a beira do Solimões, onde moram as comunidades mais afastadas. Perguntei a ela do que ela dava aula. Ela respondeu: de geografia… depois suspirou e continuou: e também de matemática e educação física.

Abraços pros machos, beijos para as fêmeas,

Altamiro

1benjaruaprinc Avenida Benjaminense, com a movimentação típica do domingo a tarde.

Este é um dos postos simples do município.2benjaruaposto

3benjarenan Este é um posto top, o Posto Renan.

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2 comentários Adicione o seu

  1. Irene Andrade disse:

    Tatá Vilhena, espero que vc já tenha superado o trauna da mochila…
    Hoje ri com suas histórias…
    Vc tem muita criatividade para escrever: ora é dramático, ora poeta ora é puro humorista!!!
    É como a vida: cada dia um novo olhar… um prisma novo!
    Bom Natal pra vc !
    Irene

  2. Elis disse:

    Suas estórias são divertidas e assustadoras….cheias de ambiguidades…como a vida …estou curtindo.

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