Impressões Amazônicas 47

 

Rio de Janeiro – Novembro 2008

 O Rio de Janeiro continua lindo. E como toda metrópole, tem alguns segredos guardados, muitas vezes mais conhecidos pelos turistas do que pelos próprios brasileiros. Um destes segredos está ali, entre a Lapa e Santa Tereza, região do centro, famosa pelo antigo Aqueduto da Carioca, inaugurado em 1750, hoje conhecido como Arcos da Lapa, que é percorrido por um bondinho, também ele reminiscência de tempos em que se amarrava cachorro com lingüiça.

Pois ali, encravado em uma área onde é tão fácil encontrar turistas quanto no aeroporto, se esconde a Escadaria Selarón. Tudo bem se você nunca ouviu falar dela, e nem sabe o que é esse tal de Selarón. Na verdade, Selarón é o nome de um chileno daqueles “malucos-beleza”. Artista plástico que rodava o mundo, se encantou com a boêmia da Lapa, e aqui ficou. Como não tinha muito o que fazer, mas a criatividade estava mil, começou a transformar banheiras em jardineiras, ao redor de uma escadaria que leva ao convento de Santa Teresa. Bonitinho, mas não deu ibope. Aí ele começou a revestir os 215 degraus da escada com azulejos. Sim, 215 degraus!

Como o lugar é point de descolados, bacaninhas e diferentes de todo o mundo, Selarón fez fama e virou ponto turístico. Muitos dos azulejos foram feitos por ele, com técnica de cerâmica, mas outros vieram de todos os lugares do globo. Encontrei azulejos portugueses, americanos, gregos, italianos, japoneses, russos, australianos e até seilaoques (uma língua esquisita, não entendi nada…) .

A escadaria tem duas áreas bem definidas. A central é predominantemente verde-amarela, uma homenagem a pátria adotiva. As laterais são vermelhas, mesma cor das bermudas, sandálias e bicicleta que o artista bigodudo sempre usa. Coisa de artista.

É bonito lá, mas o mais incrível é imaginar o poder de transformação que um único homem é capaz de ter. É lógico que nós também temos este poder, ainda que não nos demos conta. Um único homem, com paciência, boa vontade, trabalho e uma idéia simples, se transformou, não só em uma atração turística em um lugar cheio de atrações como o Rio, como em uma referência mundial. E nós, será que não conseguimos fazer o mesmo? Nos transformarmos em uma referência ao menos para quem está próximo de nós? Pausa para a reflexão.

Comunidade Malacacheta – Etnia: Wapixana – Município: Cantá – Roraima out 2008 

Recebi um convite daqueles que não dá para recusar: III Festa da Damurida, na comunidade Wapixana de Malacacheta, município do Cantá, pouco menos de 80km de Boa Vista. Os Wapixana são uma das etnias mais adaptadas ao convívio com os não índios, mas tem se esforçado para valorizar ao máximo seu patrimônio cultural, o que é feito, inclusive, pelo ensino bilíngüe nas escolas, o que garante que as crianças já estão aprendendo a língua que muitos dos seus pais perderam.

A festa seria uma oportunidade para eu conhecer uma comunidade Wapixana e provar a famosa damurida, prato típico da culinária Roraimense, em que a pimenta queima tanto quanto as lavas de um vulcão, mas que é a preferência de onze entre cada dez indígenas.

A programação era extensa e muito interessante, com diversos concursos e eventos ao longo de três dias. Alguns já demonstravam a integração com nossa sociedade, como o futebol, a corrida a cavalo, cabo de guerra, a rainha da damurida e o forró na maloca. Outros parecem saídos de livros e são daqueles que nos fazem pensar em uma comunidade típica: ferrada de formiga (quem se habilita?), ralar mandioca (ai meu dedo!), corrida com tora, trançar darruana (cesta típica), fiar algodão, fazer fogo tradicional, fazer panela de barro, arco e flecha e lança, a damurida mais gostosa e, os que para mim parecem verdadeiro suicídio: maior comedor de damurida e maior bebedor de caxiri.

 Entrada da aldeia, com o centro comunitário ao fundo.

Vamos as descrições: o caxiri é uma bebida produzida com a mandioca fermentada, vendida em garrafas de big coke e que permanece fermentando o tempo todo. Assim as bolhas ficam subindo sem parar, e algumas tampinhas chegam a voar longe. Seu teor alcólico é alto suficiente para encontrarmos vários indígenas pra lá de Malacacheta, antes mesmo da competição começar.

A damurida, como já falei antes é um prato vulcânico. A receita está lá no blog (https://impressoesamazonicas.wordpress.com/2008/09/14/receita-de-damorida/), e é feito com pimenta, carne ou peixe, mais pimenta, alguns temperos, mais pimenta e goma de tapioca. Para finalizar uma pitadinha a mais de pimenta que é para apurar bem o gosto.

 

No caminho para a festa damos de cara com um sítio com a curiosa placa de “Cuidado com o Rabudo”. Mas que diabo disso é esse tal de Rabudo? Não consegui descobrir. Continuamos e passamos por várias malocas a beira da estrada, mas todas vazias. Todo mundo já estava na festa.

A comunidade estava toda enfeitada: faixa de boas vindas, pessoas animadas indo para lá e para cá. Hoje é o dia da principal competição: futebol. Os indígenas são loucos por futebol, tanto homens quanto mulheres. No futebol feminino, embora a maioria das jogadoras seja adolescente ou jovem, algumas senhoras se aventuravam, inclusive a goleira campeã, que flagrei tomando um gol.

No centro comunitário, havia a exibição da parichara, dança típica, e depois, o forró na maloca, que rolava noite adentro até o galo cantar ou o tuchaua reclamar. Para os que não sabem, tuchaua é o nome utilizado para designar o cacique nestas terras do norte.

 Maloca de reunião

Ao redor do centro, diversas barraquinhas dos próprios indígenas. Aliás, no convite a recomendação era bem clara: “Vendedores ambulantes não serão aceitos”.

Paçoca

 Milho colorido

 Banana vermelha

Embora fosse “festa de índio”, tinha muita gente de fora, olhando, comendo, bebendo, se divertindo, em uma ótima integração. Nós, forasteiros, éramos olhados com o mesmo olhar curioso que olhávamos, em busca das novidades, especialmente pelas crianças, ansiosas pelo diferente, e pelos idosos, olhos cansados de luta, pele morena sulcada por horas de trabalho a fio sob o sol.

Compramos bananas vermelhas, milho roxo e colorido. Nos distraímos com um suco de cupuaçu e paçoca com banana, esperando pelo momento da experiência com a damurida. Olhamos uma, outra, mas… cadê a coragem? Quem iria indicar onde comer, como comer e como apagar o incêndio. Pensei até em preparar uma jarra d´água ou um extintor, mas… achei que não ia dar certo. E não sabia, em minha inocência, que a água não só não iria melhorar, como iria piorar, pois só depois aprendi com minha amiga Denise, do Rio, “pimentóloga”, que “quanto a ardência da pimenta não se pode tomar água, pois água é condutora da ardência. Deve-se sim, lavar a boca com leite ou creme de leite, se possível, bochechar.”

Vivendo e aprendendo, mas eu amarelei… Fica pra próxima!

Abraços amarelos, fugindo da pimenta,

Altamiro

8 comentários Adicione o seu

  1. Jorge disse:

    Que absurdo !

    Agora Altamiro começa a mencionar locais e fatos de fora da Amazônia ! ele está ganhando o Brasil… e já merece um programa seriado de TV – tipo National Geographic – mostrando suas Impressões Amazônicas & Brasileiras
    Maninho… já pensou nisso, também ?
    Abração,

    Jorge

  2. Arnaldo Carvalho disse:

    conheci o celaron pessoalmente e o entrevistei, ha dez anos atras!!!
    abs e saudades.
    Arnaldo

  3. Everardo Lopes disse:

    amigo da paz altamiro, boa tarde.

    parabéns por mais este artigo.

    quem muda as coisas são as pessos. Alguns pensam que são as organizações da sociedade civil, (CNPJs, da vida) e este artista o bigodudo é o melhor exemplo que a sustentabilidade está na ação das pessoas. Assim como tenho dito que é esse médico magrinho chamdo de altamiro é que está mundando a sí e o mundo.

    muita paz

    everardo

    feliz natal e um ano novo chei de paz e alegria para avocê e toda a sua familia.

  4. Silvana Benzecry disse:

    oI ALTAMIRO, AGRADEÇO SUAS FOTOS E TENHO VISTO SEU BLOG, VC ESCREVE MUITO BEM. COMO VC ESTA?
    DESEJO SAUDE E FELIZ ANO NOVO P VC E SUA FAMILIA
    BJO SILVANA

  5. Moacyr Ennes Amorim disse:

    Tamirim,
    Já descobriu o que é o tal do rabudo!?
    []s
    Cisa

  6. Maria Dolores de La Sagra disse:

    Tamirinho, tamirinho…. cê não pára mesmo né?
    Que bom, fico muito feliz quando vejo alguém FELIZ com o que faz!
    Mas, escrevo apenas para comentar da escada! É, a escada. Faço coro com você quanto ao pouco conhecimento que os cariocas tem de suas “belezas”. Os locais pouco conhecem, algumas pessoas sequer imaginam que tem uma escada tão colorida assim e tão aqui, mas os turistas, os “de fora”, esses a conhecem bem! Tanto que até em videoclipes de rappers mundialmente famosos a escadinha aparece em destaque!
    Sugiro os mais desligados que assistam ao videoclipe da música “Beautiful” dos famosos Snoop Dog e Pharrel.
    Lá, a “escadinha” é estrela de respeito entre outras curiosidades bem cariocas (o ônibus da viação 1001 passando na praia, o parque lage disfarçado de mansão com cama no “quarto” e grande festa no final.
    Este aliás, o Parque Lage, já é estrela de outros clipes. A turma o Black Eyed Peas também gostou dele….
    Beijo!

  7. Alex da Fonseca disse:

    Sensacional “Cuidado com o Rabudo”, se descobrir o que é, me conte

    Abração
    Saudades

    Alex

  8. Cristina Travassos disse:

    Oi Altamiro, é sempre muito interessante ler as suas impressões e ainda aprender como a escadaria Selarón. Já morei em Santa Teresa e subi muitas vezes por ela mas desconhecia o nome e a historia. Vivendo e sempre aprendendo.
    Como vc mesmo disse o Rio de Janeiro continua lindo, apesar……………………..
    Um Natal com muita paz e um 2009 repleto de alegrias, saude e realizações.
    Cris

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