Impressões Amazônicas 53

Nossa ignorância por vezes é cruel com os indígenas que devemos socorrer. Recentemente, para nossa alegria, um pequeno curumim teve alta da UTI. Como já contei, até estarem grandes as crianças dos grupos Yanomami não tem nomes, assim são registrados no hospital como Filho de… ou Filha de… Assim, lá fomos nós chamar a Cecília que estava na CASAI (Casa do Índio), esperando a melhora do seu filho. A Casai enviou a mãe e, para nossa surpresa ela não queria amamentar o pequeno. Achamos que era devido a longa permanência na UTI, mas a mãe se recusava. Após muito gestual para cá, falas não compreensíveis de ambos os lados e mais gestuais para lá, entendemos apenas ela dizer Casai, Casai, Curumim Casai. A criança ainda estava debilitada, então não poderíamos mandá-la ainda de volta para a Casai, como a mãe parecia nos solicitar. No meio deste trabalho de convencimento, nada da mãe querer amamentar. Já um pouco impacientes, alguns profissionais brigavam, resmungavam e todos concordavam que era uma lástima o comportamento da mãe, que nas poucas vezes que concordou em colocar a criança ao seio, já sob muita pressão, ela imediatamente lavava a mama e fazia cara de nojo. Por todo domingo isto aconteceu e a equipe contava os minutos para e chegada da intérprete da coordenação indígena na segunda-feira, para tentar convencer a mãe a mudar este comportamento.

Finalmente chega a segunda-feira e com ela a Geralda, que nos seus mais de 20 anos de convívio com os Yanomami já ganhou até oferta para ser trocada por trabalho para ficar como esposa de um tuchaua (cacique). Ela começa a falar com a mãe e… Aquela não era Cecília. Era Ceciça. Seu filho estava na Casai, certamente sentindo falta da mãe por todo domingo, enquanto Cecília continuava na Casai, com certeza ainda preocupada com seu filho na UTI…

Sem comentários…

Boa Vista x Manaus

Estou indo para Manaus de carro. É a primeira vez que faço esta viagem, que, de acordo com o mapa, rasga a Amazônia, saindo do lavrado roraimense para a região de floresta fechada, cruzando rios magistrais e terras indígenas, e atravessando a linha do Equador.

A estrada é boa e a viagem, de mais de 700km corre tranqüila. Só tem uma coisa errada. Logo me vem a mente a mesma sensação que tinha quando viajava de Redenção a Belém (e que, por me deprimir um pouco, nunca enviei aos amigos)… onde está a floresta? Na medida que escurece percebo que a vegetação começa a se formar. Já vão dar seis horas quando vejo as primeiras árvores maiores, que prenunciam a entrada na área indígena Waimiri-Atroari. Seguimos, passando por um posto de controle da receita estadual e… não podemos seguir. Nosso direito de ir e vir é impedido, pois na área indígena, ninguém circula depois das seis horas da tarde – salvo ônibus e caminhões com carga perecível.

Não vou mentir. Fiquei bravo, sensação que só passou no dia seguinte, quando retomei a estrada e percebi que as restrições tem motivo de ser. Esta é a única região da estrada onde a floresta vem nos visitar, e árvores altivas margeiam a pista nos dois lados. No caminho cruzamos igarapés, uma passarela natural de macacos (identificada por placas, e onde as copas das árvores dos dois lados da estrada se abraçam gentilmente) e muitas placas alertando para termos cuidados com animais e para o fato de estarmos em área indígena, não podendo parar.

Outra placa, constantemente atualizada indica o número de animais atropelados por ali naquele ano. Quando passamos, a cifra passava de 5000 vítimas, por si só um bom motivo para que não haja circulação de carros a noite, quando os animais saem de suas tocas. Ao fim da reserva, onde devido as chuvas que acontecem diariamente devido a floresta tornam a estrada esburacada e de direção lenta, encontramos novamente com a estrada careca. As árvores se despediram de nós, dando a certeza de que, apenas sob os cuidados dos indígenas a Amazônia se manteve neste trecho.

Os botos de Novo Airão

Poucos animais exercem tanto fascínio sobre nós quanto os golfinhos. Golfinhos são tudo de bom. Inteligentes como macacos, simpáticos como pandas, afetuosos como cachorros. Como eu disse… tudo de bom!

No Brasil há vários lugares onde os golfinhos podem ser vistos nas praias. Nos rios amazônicos encontramos duas espécies, aqui chamadas de botos: o cinza, conhecido como tucuxi e o cor-de-rosa. O cor-de-rosa é animal especial, mágico, que ganhou fama de lenda. Maior que o primo cinzento, é acusado de seduzir mocinhas, levando-as ao fundo dos rios para noites de amor, nas quais, invariavelmente, as engravidam. A fama é tão grande que em todo mercado mais popular, inclusive no famoso Ver-o-peso, de Belém, se encontra com facilidade (contrariando as nossas leis ambientais), tanto o “sexo do boto” quando o “sexo da bota”, ambos com propriedades afrodisíacas incomparáveis, segundo os locais.

Assim, seduzido pelos botos, cá estou eu em Novo Airão, município amazonense distante cerca de três horas de Manaus, para mergulhar com os botos cor-de-rosa. Sim, aqui eles são tão habituados com a presença humana que se pode mergulhar com eles – sem o perigo de ser levado para o fundo das águas.

E vou ser sincero, fui enfeitiçado. Não sei se é “ambientalmente correto”, mas… é tudo de bom. Eles são realmente dóceis e se aproximam com facilidade. Na verdade não são tão desinteressados, pois a melhor forma de atrai-los é com um bom punhado de peixe, mas uma vez que o cheiro do peixe cai no rio, lá vem. Um, dois, três, quatro… contei até sete botos. E se você entra com o peixe dentro do rio eles vem “abraçá-lo” gentilmente, pedindo o peixe. O problema é que, embora gentis conosco, não são assim com os irmãos de espécie, e então, como dois botos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço, um pula por cima do outro, da focinhada e até morde, na tentativa de deixar claro que “este peixe é meu”.

Exceto por esta briga entre irmãos, que é possível de ser administrada com um bom estoque de peixes, a alegria é contagiante. A gente se sente meio Namor, Aquamen, Netuno ou qualquer uma destas criaturas meio humanas, meio aquáticas que habitam nosso imaginário. Com uma máscara você pode mergulhar abraçado a eles, com um peixe bem acima da linha d’água eles chegam a colocar as barbatanas de fora. E com um pouco de paciência, logo você tem fotos de toda família… pois cada boto já foi batizado e tem seu nome próprio, podendo ser identificado por diferentes sinais como um bico torto ou manchas na face.

Novo Airão, guardem este nome. Não dá vontade de ir embora. A sensação de integração a natureza é única. A plenitude maior ainda. Posso ter abraçado um boto, mas com certeza fui abraçado por Deus.

Percebe-se a mata ao tempo todo ao lado da rodovia  dentro da área indígena Waimiri-Atroari.

Cartaz mostrando a contagem de animais atropelados.

Trecho onde as árvores da floresta de ambos os lados da estrada se abraçam, formando a “passarela” para os macacos.

Entradas da cidade de Novo Airão 

21 comentários Adicione o seu

  1. Tatiana Félix Façanha disse:

    Oi. Recebi as Impressoes Amazonicas.A sua foto com o boto é um daqueles momentos que só se vive uma vez. Voce pode tirar outra foto, em outro dia, mas a primeira e a que fica, igual quando voce foi ao Pantanal quando era Senior. Falando nisso, eu já fui a muitos encontros embaixo da bunda do indio. Falando nisso, no mundo dos indios tem um costume estranho para quem nao é indio: a criança só ter nome depois de certa idade. A mae que amamentou o filho que nao era dela, vendo os brancos insistirem na amentaçao, viveu um momento de nojo e medo.

  2. Dulce Firmento disse:

    Oi amigo,
    Que saudades! Estás firme e forte por aí..cuidando da saude dos pequenos indios?
    Achei lindas as fotos dos botos ….fantasticas!
    Desejo a voc~e e sua familia UM FELIZ NATAL e UM ANO NOVO ABENÇOADO!
    Com carinho da amiga,
    Dulce Firmento

  3. Daniella Avino disse:

    Oi!
    Obrigada pelo texto lindo e pelas fotos maravilhosas!
    Daniella

  4. Valéria Moisin disse:

    Boas fotos…passou por aqui né…legal mesmo
    tchau!
    Valéria

  5. Jorge Pinheiro disse:

    A MELHOR FOTO DE TODOS AS IAs = ALTAMIRO E O BOTO COR DE ROSA !
    Hahaha… excelente !
    Show de Bola.
    Jorge

  6. Alexandre Rosa disse:

    É isso aí, estou realmente Feliz, e contando vantagem sobre um amigo que nada com botos, quase uma lenda.
    Seja feliz.
    Ale

  7. Waldir disse:

    Gostei muito obrigado! Parabéns…

  8. Tãmara Ribeiro disse:

    Puxa TATÁ, que legal … lindo vc e os botos …. BEM sua cara…. aventureiro… saudades…

  9. Marcileide Barros disse:

    Bom dia Altamiro, descupe não ter dado mais notícias,
    a universidade estava me consumindo esse fim de período e não tive tempo para nada.
    Mas muito obrigada por enviar esse email,
    amei as fotos, e fique a vontade em me mandar mais, pois amo os animais e a natureza, “não é por acaso que faço Biologia.”
    Prometo que agora nas minha férias vou tenviar fotos do meu estado – Alagoas.
    E com certeza vou divulgar sim o seu blog, pois é muito interessante.
    Abraços, bom fim de semana.

  10. Andreza Oliveira de Souza disse:

    Altamiro:
    Amei, realmente Novo Airão deve ser apaixonante, mesmo sem trânsito a noite, morrem tanto animais, que pena!!! Faço questão de continuar recebendo, dá uma pontinha de inveja sabia? Que história da índia, ainda precisamos evoluir muito né! Um beijo…

  11. André Julião disse:

    Oi Altamiro
    É um prazer receber suas impressões amazônicas. Estive recentemente em Alter do Chão, um lugar maravilhoso cuja visita recomendo.
    Abraço

  12. Samuel Menezes disse:

    Grande Altamiro:
    Vc é a figura mais genial que conheci. Queria poder fazer todas essas viagens que vc faz.
    Fique com Deus e Nossa Senhora. Há, acho legal sua relação com a natureza. Penso que é uma forma de louvar a Deus, respeitando cada espécie desse imenso planeta. A única espécie que é um pouco mais cumplicada é a espécie humana. Talvez porque Deus nos dotou de inteligêcia…rsrs. Abração

  13. Pedro Castilhos disse:

    Querido Alta, meu irmão-Lobo:
    Como sempre, tuas histórias maravilhosas sobre nosso belo mundo…
    Não fiques bravo comigo, mas não resisto a algumas observações, bem ao meu estilo “cri-cri-hyper”:

    1- “contava os minutos para e chegada da tradutora da coordenação indígena” – pode até ser que a titulação da carteira de trabalho da funcionária seja esta, mas “tradutor” se usa somente para versões escritas; para verter língua falada, o profissional é o “intérprete”;

    2- “onde devido as chuvas que acontecem diariamente devido
    a floresta” – o “as” leva crase (`).

    Peço teu perdão, pois não resisti à tentação de mencionar…

    À parte esses detalhes de menor importância, acho “muito maneiras” tuas histórias.

    Gostei muito da primeira parte, a da mãe que não era “a” mãe e não queria amamentar. Faz-me lembrar muito de situações que vivi quando trabalhei com intercâmbio de estudantes. Na verdade, não somos, pelo menos ainda, muito educados, no sentido de preparados, para lidar com nossas diversidades. Pelo menos, de um modo menos, hum, digamos, menos teimoso e impaciente. Muito freqüentemente queremos uma solução muito rápida e nos baseamos em diagnósticos igualmente apressados das situações, muitas vezes devido tão somente a uma pressa abstrata e difusa e não comprovável. Claro, escrevo em tese; não me refiro ao jovem curumim que necessitava da amamentação imediata – o caso concreto. E, por outro lado, uma indecisão prolongada não parece certamente uma característica de eficiência. Mas, ainda assim, creio ser demasiado comum nossa precipitação “endêmica”.

    Virás a Niterói para o fim de ano?
    Forte abraço,
    Pedro

  14. Cristina Travassos disse:

    Olá Altamiro, que alegria receber noticias e participar um pouco de tôdas estas vivências maravilhosas que vc relata.
    As fotos com os botos são maravilhosas e o blog é sempre visitado e recomendado.
    Um grande abraço, Cris

  15. Daniela Ribeiro Roque disse:

    Oi “Tamiro”
    Adorei as fotos com os botos, um itinerário interessante, vou sugerir para irmos lá c Flor. Pompom tb mergulhou c eles???
    Bjo na esposa e PomPom.
    Dani

  16. Ola Altamiro, tudo bem?
    Você também tem fotos lindas com os botos lá no Novo Airão. Muito legal.
    Um grande abraço a você, sua esposa e seu filho. Mande também um abraço ao Loras!!!
    Roy e Michelle

  17. Maurel disse:

    Show Altamiro, obrigado por me incluir nesta lista. Pode continuar me mandando, é muito legal recebermos informações e imagens desta realidade tão diferente do nosso dia-a-dia.
    Tudo de bom para você por aí.
    Um grande abraço,
    Maurel

  18. Joelcio Silva disse:

    Cumprimentos
    Dr. Altamiro
    Muito intessante os seus comentários
    continue a nos mostrar as “nossas” belezas Amazônicas.
    Joelcio Silva

  19. Wellerson Borges dos Reis disse:

    Caro amigo quantas saudades, ainda estou morando em Canaã dos Carajás PA, quanta coisa mudou? neste mês estou respondendo como gerente de enfermagem e sempre que a gerente sai sou eu quem respondo, sempre comento com a minha esposa sobre vocês, digo você, sua esposa e seu filhote, falando nisso tenho agora mais um herdeiro que nasceu no ultimo dia 04/12/2009 é um meninO e seu nome é Victor Hugo, somando com o outro “Wallace” agora tenho dois, fico feliz quando visito seu blog e quando você se lembra de mim, ainda vou fazer umas viagens desta com certeza, dá um abraço na sua esposa e filho e fiquem com Deus.

  20. Carlão disse:

    SEMPRE MUITO BOM O QUE VOCÊ ESCREVE. MANDEI SEU BLOG PARA UM POVO QUE CONHEÇO. ESPERO QUE ELES FREQUENTEM.
    DESEJO PARA VOCÊ UM NATAL FELIZ E UM 2010 CHEIO DE MOMENTOS DE FELICIDADE.
    ABS
    CARLÃO

  21. Daucy Monteiro de Souza disse:

    Como sempre, MARAVILHOSO!
    Feliz Natal e Ano Novo de sucewsso.
    Te aprecio muito, bem sabes.
    Daucy

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