Impressões Amazônicas 55

Comunidade / Aldeia Paraná – Etnia Ingaricó

Falaram que esta comunidade é menor que a Área Única, mas acho que não. É, com certeza, mais antiga, com casas já rebocadas, e com gente mais jovem. No primeiro encontro não vejo ninguém mais velho que eu – virei ancião!! Risos…

Novamente somos saudados com estilo. A agente de saúde está com batom rosa-pronto-para-festa e todos ajudam a carregar nosso material e logo chega um quarto de paca. Paca! Queria gostar menos deste bichinho… para mim a melhor carne de caça.

Apenas uma anciã. Todos outros que vejo nesta primeira tarde de atendimento são jovens e crianças, muitas crianças. Crianças bonitas, alegres, ativas, gordinhas, mas sempre com poucos sorrisos. Só com muito esforço o rosto se abre – e pouco.

Um doce – ou uma formiga! – para quem achar um sorriso.

Os adultos são diferentes, especialmente os homens. Quando estou montando minha barraca o tuchaua, chega de viagem: óculos amarelo, tenis estiloso, camisa nova, ainda com etiqueta do preço e um sorriso rasgado acompanhado de uma gargalhada estridente. Nos oferece caxiri, mostra a pista nova (o nosso foi o primeiro pouso), oferece caxiri novamente, conta que esteve com um deputado, insiste no caxiri, diz que esta feliz conosco e, para não perder o embalo ao se despedir oferece caxiri novamente.

O enfermeiro Higo (sem R mesmo), o Tuchaua e eu, provando a damurida.

Estamos nos campos de Roraima, terra do herói Makunaima e do perigoso Canaimé, o Pai do Mato, Rabudo. Talvez por isso mesmo o enfermeiro Igor, baiano, se espanta quando armo a barraca. “Eu, hein? Por nada desse mundo eu durmo aí fora”. Vai entender!!!

Pajuaru. Damurida de paca. Caxiri de batata. Beiju. Suco de abacaxi. Banana. Cará. Cana. Tudo isto foi servido pela manhã em nossa homenagem, e tudo isso eu provei. O caxiri gelado deve até ficar gostoso. É bonito, de cor viva, rosada. O pajuaru é forte e grosso, parece um mingau, mas é beijú fermentado. Este é o caxiri de batata. Bonito, não?

A damurida… Bem, provar este prato era um antigo sonho. Molhei o beiju, provei e… me senti um dragão pronto para lançar chamas. Curiosidade saciada, fique esta iguaria para os pimentófilos (obs: a receita está na parte de baixo deste post https://impressoesamazonicas.wordpress.com/do-que-ouvi/ouvi-caxiri-na-cuia/).

Não pensem que foi só o desjejum. Antes, o nosso animado tuchaua falou, falou, falou A comunidade se juntou aos poucos, nem todos prestaram atenção, mas ele não se abalou. Depois pediu que todos ficassem de pé e fez uma oração em sua língua, falando de Jesus Cristo. Ao final todos cantaram. Uma moça puxou um cântico com nítida influência cristã, mas com uma cadência e ritmos nitidamente tradicionais. Cantei junto (o refrão era até fácil, e repetido muitas vezes) e me senti um pouco Ingaricó por partilhar algo único (talvez isto tenha dado a coragem de provar o caxiri).

Prestando atenção ao discurso do Tuchaua?

Mais tarde o Genival, nosso técnico perguntou ao tuchaua: “O senhor é católico ou crente”. E ele respondeu: “É católico, é crente, é tudo. Deus é um só. Aqui tem sol que dá luz e calor. Tem lua. Eu viajei longe. Fui a Brasília duas vezes. Lá também tem sol. Tem lua. Deus é um só em todo lugar”.

Hoje vivi uma experiência culinário-antropológica única: comi saúva. Descobrimos que as crianças enfiam galhos em buracos e tiravam formigas, que logo viravam lanche. Aproveitando o dia mais sossegado lá fomos nós “pescar formiga”. Logo todas as crianças e até alguns adultos estavam ao nosso redor. As crianças pareciam dizer: “cara, você não entende nada!”, mas como riem pouco e menos falam, não diziam nada, só olhavam.

Primeira lição: tirar a formiga não é tão fácil. Eles logo resolveram isso e conseguiram uns dez formigões. Experiência é tudo.

Meninos pegando formiga… Tiram onda!

Eu tentando pegar formiga… Pagando mico!

Segunda Lição: O que comer? Só se come a cabeça. Pode ser comido o corpo, mas a cabeça é mais… gostosa. O problema é que a cabeça não quer ser comida, e morde e rasga o dedo das crianças. Elas não ligam. Não riem, não falam e não choram. Mas quando uma saúva mordeu o meu dedo, ao mesmo tempo que o sangue escorreu, dei um grito. Pela primeira vez escutei as crianças rirem… Mas na hora que olhei para elas, como por enquanto as expressões se tornaram sérias novamente.

Não é fácil convencer uma formiga a separar a cabeça do corpo. Esta me mordeu. E doeu!!!

Terceira lição: Como comer? Depois que a formiga está grudada do dedo a gente arranca o corpo fora, pega a cabeça e coloca para dentro. Mastiga. É crocante. Como opção, formiga inteira, mas as patinhas, fininhas não tem a crocância que torna o petisco mais interessante.

Quarto: O que achou Ana Maria Braga? Hummmmm. Esquisito. A crocância é boa, mas o gosto… é de formiga, uai!

Sol se pôs. Chega um casal, a mulher com bebê na tipóia. Puxam conversa em português arrastado. Vieram pro Ajuri. Andaram 30 minutos para ajudar na roça dos de cá. Depois vão surgindo mais Ingaricó: um, dois, cinco, sete.Todos vieram para trabalhar. Sem soldo ou cobre, somente ajudar, sabendo que um dia serão ajudados.

Troca? Acho que não. Solidariedade, de um jeito que a gente, na cidade, nem sabe mais como é. Coisa que aprendi com a família Kuribayashi, apagando incêndio em casa de “nem-sabemos-quem”. Coisa que o escotismo tenta ensinar, muitas vezes em vão. Nosso mundo não dá oportunidade para vivermos solidários. Nosso dinheiro paga a solidariedade e acabamos esquecendo que “um por todos e todos por um” não é só história de mosqueteiro.

O sol se pôs e a noite já chega. Criança sem ter o que fazer, inventa. Sem pais por perto então, melhor. E lá se vai fogo no mato. Eram cerca de seis crianças, a mais velha por volta de uns sete anos, algumas peladas, e as chamas maiores do que elas. Como se fosse a coisa mais normal do mundo. E a gente fica com medo quando o filho da gente está no trepa-trepa do parquinho…

Acordei cedo para ver o nascer do sol. Lindo. Já com luz, sento na porta da barraca para apreciar. Lindo, lindo. Mas… para quem mora aqui como será? O que é melhor? Ter um ver-de-sempre infinito como este e até esquecer sua belezura ou ter um ver-de-sempre urbano, que nos faz contentar com pouco… uma árvore, uma meia-praia, um céu?

O que é melhor para você?

Beijo no coração,

Altamiro

17 comentários Adicione o seu

  1. Edmea disse:

    Finalmente li sua narrativa e admirei as fotos – a mais artistica e aquela do perfil da menina junto ao fogareu. De que e feita a bebida? A “refeicao” das formigas e’ imperdivel. A unica coisa que me entristeceu foi a aparencia das criancas – contudo minha percepcao deve ser mesmo cultural, pois a gente acha que elas devem estar sempre sorrindo, pulando, falando alto, etc. Cada um no seu, nao e mesmo?

    Agradeco o enriquecimento que a sua narrativa nos trouxe.

    Edmea

  2. Wolf disse:

    Obrigado e parabéns pro Altamiro !

    Excelente texto e fotos boas e diferentes. Lembrei os meus tempos com os índios do Equador, tomando chicha com eles, eles ainda pintados e a caráter como antigamente.
    Aproveitem, anotem, registrem! O registro é um dever nosso, mais ainda na áreas indígenas. Nos meus primeiros contatos com os Bororos (1981), eles ainda andavam de plumaria completa e pintados de rigor. Poucos anos depois só fora da rotina tribal. Talvez sua geração é a ultima a ter a chance de conhecer a vida indígena.

    Abração

    Wolf

  3. Beto Basso disse:

    Altamiro, quero te dar uma idéia.
    Os relatos são fantásticos (quero um livro autografado heim?!), as fotos são lindas (poderia ter umas mulheres mais bonitas, mas vá lá! Torço pra que um dia tu faças um capítulo destas “impressoes amzonicas numa praia do RJ!), mas a idéi que eu queria te dar era incluir do google earth uma foto do local onde se situa a aventura, assim, nós que estamos a milhares de km distantes, teremos uma melhor “situação” da aventura, o que achas?
    Quando eu morei no MT, os caras por lá comiam a saúva, mas quando ela soltava enchames, as tanajuras, pegavam a bunda e faziam farofa, nunca comi uma tanajura…eu quria uma bem grande!!!!!!!!!!!!!!!!!
    Gostei da camiseta do Jampan.
    Abraços
    Beto

  4. Dale Thomas disse:

    ADOREI,
    Valeu irmão!
    Dale

  5. Everardo Lopes disse:

    amigo da paz altamiro, bom dia.

    é isso aí EU CANTO A MINHA MORADA!

    muita paz

    everardo

  6. Waldir disse:

    Gostei muito das fotos brother! Obrigado. Abração…

  7. Waldir disse:

    Gostei muito das fotos brother!
    Obrigado.
    Abração…
    Waldir

  8. Daniela Ribeiro Roque disse:

    Oi Altamiro

    Muito interessante…nao sabia que caxiri era rosa…
    Qto as formigas…dispenso, rs.
    Parece que estas gostando daquelas paragens, que bom.

    Adorei as fotos, esses meninos perto do fogo! Ta doido!

    Grande abraço

    Dani

  9. Daniela Ribeiro Roque disse:

    E aí brother, tudo certinho? Estou morando em Manaus, qualquer coisa me liga,
    Grande abraço. Mazur

  10. Mazur disse:

    E aí brother, tudo certinho?
    Eu estou morando em Manaus. Qualquer coisa me liga,
    Grande abraço.
    Mazur

  11. Cristina Travassos disse:

    Oi Altamiro, como sempre é com muita satisfação que leio mais uma de suas vivências tão bonitas, descritas com tanta realidade e ainda as fotos para ilustrar.
    Um grande abraço, muita saude e alegrias.
    Cristina

  12. Sam Carneiro Gouveia disse:

    Me deleito na leitura das suas IA as vezes fico imaginando como deve ser legal estar em contato com tudo isso que vc descreve, é uma sensação maravilhosa, continue, faz um bem enorme ler suas impressões e partilhar de suas vivencias, imaginar os locais por onde vc passa, o bem que vc faz por onde anda.
    Que DEUS te ilumine sempre.
    Abraços.

  13. Luana disse:

    Oi Altamiro!
    Acho super legal teu trabalho, ah se eu pudesse fazer um parecido… A minha realidade é essas calmas montanhas suissas e muita pressao pra que saibamos tudo que é de atual na medicina fazer trabalhos burocraticos e logicamente ver os doentes, felizmente antes de casar e vir morar aqui trabalhei bastante na zona rural do nordeste (sertao bahiano). A coisa que mais mexeu com a minha curiosidade foi esta damurida de paca afinal é gostoso mesmo? Por favor manda uma foto desta comida. Quando falo do teu trabalho nossos colegas daqui viajam acho que vou ti mandar uns estagiarios.
    Muito obrigada pelas belas impressoes da amazonia que morro de saudades mais que a encontrarei de novo agora em julho e irei acabar-me nos beijus tacacas açais e companhia…
    Um grande abraço.
    Luana

  14. Ana Cristina Jensen disse:

    Oi primo.
    como adoro suas mensagens, posso fazer propaganda do seu site https://impressoesamazonicas.wordpress.com no meu facebook?
    espero que tudo bem,
    voce come mesmo estes bichos?
    bom, eu comi gafanhoto e outras coisas mais quando na Tailandia… fritinho tudo parece PITU!
    Cris

  15. Débora Martins disse:

    Mais uma vez, não canso de dizer, excelente!
    Escreve brilhantemente, dá muita vontade de viver essas experiências (acho
    que eu não comeria saúva, mas tudo bem… rsrsrs).
    Demorei pra ler, pois gosto de me deleitar, ler, reler, ver as fotos…
    Amigo, saudades, nem te conheço direito “pessoalmente”, mas mesmo assim, te considero um amigo, além de irmão, filhos de BP!
    Se cuida, que Deus te abençoe e que continue te dando essa paz no coração, bondade, essa humildade características suas que estão cada vez mais difíceis de se encontrar, sem falar na inteligência!
    Não precisa responder, sei que deve estar corrido, só escrevo pra te dizer um oi e dizer que continuo sendo sua fã…
    Bjinhusssssssss

  16. Dalila de Melo Gomes disse:

    que legal altamiro…adoro receber suas impresoes amazonicas….essa da formiga é d++++..rs dalila

  17. Mara disse:

    Oi!! Que saudades de vc…Qdo virá para São José??Quero te desejar uma Feliz Páscoa…Beijos e até mais

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