Impressões Amazônicas 6

25 de abril de 2005

Acho que a história que vou contar agora vai dar bem idéia de como são as coisas aqui… Esta semana na hora do almoço demorei um pouquinho mais na net e só saí a uma da tarde. Em todo centro da cidade há somente dois restaurantes: o Chaguinha, onde costumo comer e um outro que não me atrevi… é com mesa coletiva e em um lugar beeem sujinho. Tem outros restaurantes (dois) mas ficam afastados. Aí vocês imaginam que o tal do Chaguinha vive cheio, né?! Não é… Como disse cheguei cerca de uma da tarde… restaurante vazio. Fui ao balcão, vazio e fiz barulho… Nada. Gritei: “Boa tarde!” e nada. Aí aparece uma mulher e eu pergunto: ” Tem almoço?” E ela responde… “Tem, mas tá sem gás e a dona tá dormindo, não vai sair para comprar agora….” Resultado… almocei cream-cracker com queijo no quarto. Como fiquei com fome, resolvi jantar melhor e encarar o “assado” das ruas. É algo que há muito queria experimentar. Na avenida principal, a partir de umas 17h começam a aparecer barraquinhas com espetinhos e algumas cadeiras. Você pede um espetinho, que dá o dobro dos que temos por aí. Pode ser frango (o mais tradicional), coração (um pouco mais caro), calabresa ou carne. Eles servem o espetinho com arroz, farofa e tacate (para quem não lembra o que é tacate do Impressões 2, é a farinha de banana salgada). Para “molhar” um pouco tem um vinagrete sem pimentão, mas com pimenta… que é só para estômagos fortes como a mamãe ou o Alê. Assim, foi a seco. Pedi um suco… não tinha, mas a água era cortesia… Embora seca a comida estava bem gostosa, e valeu os “dorreal” (2,00) que paguei!! Para arrematar, já que o que não mata engorda fui na vizinha da barraca e pedi um suco. Ela pega uma garrafinha pequena de refrigerante com suco de maracujá bem docinho… 0,50… Jantado e pronto para dormir…

Esta semana também teve um grande agito por aqui. O Governador, o Ministro Cyro Gomes e a linda Patrícia Pilar vieram a cidade. No dia tudo foi ajeitado, o asfalto refeito e a ciadade parou para recebê-los. O funcionalismo público (exceto a saúde), só trabalhou meio expediente, e encheu de gente na balsa para ver a chegada do pessoal que foi inaugurar uma fábrica de beneficiamento de peixe. Depois almoçaram no Cabanas, o único restaurante que pode ser considerado legal na cidade, e que teve todo o caminho para sua entrada repentinamente asfaltado e foram visitar a aldeia dos Tikunas. Eles já foram, e eu… continuo na vontade…
Mas não pense que é tão fácil. Sabem qual a maior queixa dos escoteiros daqui e de Tabatinga? Não pensem que é só a distância ou a falta de apoio. É exatamente a falta de lugares para acampar. Incrível, não? Acontece que muito do que existe de área por aqui é dos índios, e branco não entra (branco para eles é todo mundo que não é índio, mesmo que seja mais preto do que o Grande Otelo). Além disso, tem outras áreas do exército, onde não entra branco nem índio; áreas de narcotraficantes, onde não entra branco, índio e militar; e áreas de mata fechada, onde não entra branco, índio passa, não entra militar nem traficante. Onde resta para acampar? Quase nenhum lugar. Para complicar, uma simples visita ao município vizinho implica nas seguintes opções: 28 km de estrada intransitável para carros a pé OU 18,00 só de barco… Caro, não? Ainda mais considerando que o nível salarial aqui é baixíssimo.
Bem, no dia da visita até sumiram da rua os nossos modernos postos de gasolina, talvez para o Governador não resolver abastecer os carros dele aqui com o preço tão em conta… Aliás, muita gente me escreveu perguntando dos postos depois de ver as fotos. Deixe explicar. A gasolina do Brasil vai para a Colômbia onde paga muito menos impostos. Assim ela é beeem mais barata lá e não tem a adição de álcool na mistura. Esta gasolina então é vendida nos postos e os brazucas atravessam a fronteira para abastecer os seus carros, o que levou à falência todos os postos brasileiros. Então, este é o estranho caso da gasolina brasileira levando os brasileiros a falência.
O pessoal também comentou bastante sobre as questões médicas. Bem, se você está moco pode não ter entendido, o problema é que o menino está com o vento choco. Entenderam? Pois é… às vezes não é fácil. Moco é surdo, e vento choco é estar com os gases com um cheiro pior do que o da média… Além das palavras, temos que conviver com os grandes conhecimentos médicos da população. Hoje atendi uma criança que tinha um espinho no pé. A mãe resolveu tirar e infeccionou. Perguntei como ela fez e ela contou. “Dr. eu ia usar uma agulha, mas podia estar suja e preferi não arriscar. Aí peguei o espinho de uma árvore (ela falou o nome e não me lembro) e tirei com o espinho mesmo, que estava limpinho!” .
E nas consultas o desfile de nomes continua… Esta semana bons foram os irmãos Rhiangrainy e Rooltemberg, Cidernildo e Agazildo. Mas o melhor de todos é Sting Hendrix!!! Eu resolvi colecionar também os sobrenomes, que muitas vezes também são diferentes do que estamos habituados, com influências indígenas e peruanas. Vejam só. Vocês já conheceram aí no Sul algum Tapudima, Ipuchima ou Moçambite? Mas o que realmente eu nunca vi antes era o sobrenome Chota. Imaginem a cena no aeroporto: “Atenção, chamando Mr. Chota”. E se a Chota casa com o Pinto, o que acontece? Bem, deixa para lá…
Mas se você quiser ser local, não chame ninguém de Mermão, Tio, Meu, Cumpadre, Brother, Chefia ou Comandante. Aqui os homens são simplesmente “meu patrão”, e as mulheres “mana”. Nada mais simples. Você pode chamar qualquer um desta forma, pois sempre será entendido e aceito como um local.Já foi muito por hoje, espero não estar cansando vocês.A gente se fala.
Abraços pros meus patrões e beijos para as manas,
Altamiro
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3 comentários Adicione o seu

  1. Debora Martins disse:

    É mesmo uma viagem…
    Gostaria de ver as fotos? Onde estão? Onde posso encontrá-las?
    Bjks

  2. Altamiro disse:

    Oi Debora,
    Esta na verdade não tinha fotos… foi das primeiras… antes da tecnologia estar definitivamente incorporada as IA… risos…

  3. Elis disse:

    Bem o André ia simplesmente virar freguês das “lanchonetes” daí…rsrsrs
    Os nomes e termos também vou compartilhar com ele…pois adora falar difícil este meu marido…rsrsrs
    Inté…..

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