Impressões Amazônicas 60 – Acre

– O que? Não tem rio Branco aqui?

Esta foi minha segunda surpresa ao chegar ao Acre. Eu sempre imaginei que o nome da capital do estado mas desconhecido do Brasil fosse devido a um xará do rio que corta Boa Vista, o Rio Branco. Não é isso que acontece, o rio se chama rio Acre e a capital evoca o célebre Barão do Rio Branco, responsável pela incorporação legal desta terra pelo Brasil.

10 08 Acre (23) O rio Acre. Dá para perceber a diferença de nível que o rio alcança quando cheio. Lá embaio os flutuantes e barcos, ao longe uma das pontes que liga os dois lados da cidade de Rio Branco.

Eu queria muito ver um seringal. E vim. Estou no Seringal Cachoeira, em Xapuri, onde trabalhou Chico Mendes e onde ainda trabalham alguns de seus parentes.  Mais uma surpresa. O seringal ocupa uma faixa estreita de mata, ainda que bem preservada, mas rodeada de… um doce para quem acertar… pastos!

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A borracha, antes tão necessária para pneus que rodavam em todo o mundo hoje fornece o látex para algo um pouco menor, mas igualmente importante e até mais agradável. Em Xapuri são produzidos os preservativos Natex. Estes acho que até o Boto recomenda, já que hoje já não são tão comuns as histórias de meninas enfeitiçadas – e engravidadas – por este ser sobrenatural.

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No meio da mata descobri uma iniciativa muito legal. Se no Sul temos os hotéis-fazenda, aqui no Acre temos os “hotéis-seringais”. São pousadas rústicas de madeira, algumas com beliches coletivos, em meio a mata, debaixo de grandes árvores e totalmente administradas pelas associações de moradores.  Se você nunca ouviu falar, não se espante. Brasileiros aqui são raros. Procure em uma revista de turismo da Europa e Japão que talvez você encontre, pois este é o público alvo, que vem e viaja direto para o Peru.

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Tem suíte também, mas o popular é ficar em quartos coletivos, como em um albergue!

Xapuri é uma cidade muito simpática. As margens do sombreado encontro dos rios Xapuri e Acre, foi criada e desenvolvida por conta da borracha que aqui foi motivo de vida, riqueza, luxo e morte. Hoje busca encontrar sua vocação, especialmente no turismo, motivado pela curiosidade de ser a “terra de Chico Mendes”.

IMG_4743Museu de Xapuri

O comércio atual e alguns prédios públicos ocupam imóveis de antigos estabelecimentos e todos possuem placas metálicas que contam sua origem, o que faz um passeio nestas ruas culturalmente divertido e interessante. Por exemplo, no 205 encontramos “Aqui funcionou o açougue do Sr. Tuffic Kouri, onde trabalhava o magarefe Antonio Nigro”.

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Noite – O casarão centenário da Pousada Chapuris nos atrai. Se não encontramos vestígios dos antigos habitantes da região, os dizimados Xapuris, ao menos encontramos testemunhas do tempo da borracha.

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Nesta época migravam para cá milhares de nordestinos, principalmente cearenses, os “soldados da borracha”, que fugiam da fome e seca no nordeste em busca de um paraíso tropical para muitas vezes encontrar a morte nas picadas de um mosquito ou na mordida de uma serpente. Terra de macho, chão de bravo, só mesmo os nordestinos conseguiriam domesticar a natureza . Lutas com peruanos, com indígenas, com animais selvagens, com rios caudalosos, com doenças, com outros homens. Luta por tudo e para tudo, acima de tudo para viver. O seringalista, como o primeiro proprietário do casarão, vivia da borracha mas não dava duro na seringa. Dava duro nos semi-escravos seringueiros. Euclides da Cunha (escritor de “Os Sertões”), testemunha viva do Acre de outro século escreveu:

O tempo da seringa já se foi, mas as histórias permanecem. João e Nilce Mendes sabem contá-las. Seu João, bancário aposentado “foi na onda” da esposa e quando percebeu já tinha uma pousada. Hoje a Pousada dos Chapuris vira pouco a pouco um museu. Recortes de jornais e revistas ilustram as paredes , antigas máquinas de costura, juntam retalhos do passado, um gramofone ainda toca eternos sucessos de muitos discões de vinil. Os movéis do tempo da prosperidade local vieram de todo o mundo: um enorme cofre inglês para o dinheiro da borracha, penteadeiras para as moças de família, cadeiras refinadas para reuniões de negócios e, o favorito do Seu João, um conjunto de barbeiro autenticamente centenário: “era num destes que eu cortava o cabelo” – conta ele feliz mostrando o bom estado da cadeira.

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Perguntamos por Chico Mendes e ouvimos histórias, muitas histórias. Perguntamos pelo Museu Chico Mendes e ouvimos uma história triste, confirmada nos jornais e na placa afixada na porta em que teimamos em conferir. Na porta do museu, a pequena casa de madeira onde Chico morava e foi assassinado, uma placa informa que por problemas financeiros ligados a parceria com o governo do Estado, o local estaria fechado por tempo indeterminado.  A profissão de “parente de Chico Mendes” já deu mais lucro, e a família parece ter esquecido que seu maior exemplo foi de resistir, persistir e trabalhar, nunca esperando o que possa vir do céu.

10 08 Acre (144) Esta é a casa em que viveu Chico Mendes, hoje museu, “Centro de Memória”.

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Apesar da placa o museu estava fechado e fomos informados que estava “há bastante tempo”.

OBS: A visita a Xapuri aconteceu em julho de 2010 e lembramos que o Museu pode ter sido reativado após isto. Solicitamos que alguém nos envie alguma informação mais atualizada.

Rio Branco é “budista”, busca o “caminho do meio”. O novo e o antigo se misturam e a calma se mescla a agitação de uma cidade em crescimento. No Centro o rio Acre desliza tranqüilo, esperando a próxima chuva que pode fazer com que perca a paciência e esqueça que está preso em suas margens. Carros atravessam antigas pontes metálicas, mas pensando nas pessoas e nos ciclistas uma passarela também cruza as águas escuras do rio que batiza o estado.

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As margens do rio uma centenária gameleira testemunha o presente vivo sem esquecer do passado, preservado no casario reformado que dá aspecto de túnel do tempo ao calçadão que percorro no final da tarde.

10 08 Acre (20) Eu “batendo papo” com o poeta Juvenal Antunes. Uma de suas poesias mais famosas começa assim:
”Bendita sejas tu, preguiça amada, que não consentes que eu me ocupe em nada” Viva o poeta!

A memória do passado está bem guardada em diversos museus espalhados pela cidade. O da Borracha conta a história dos “soldados da borracha”, dos criador da União do Vegetal e de um tempo que dinheiro pouco era bobagem por aqui. O dos Povos da Floresta mistura cultura indígena, ribeirinha e as lendas amazônicas.

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Casa dos Povos da Floresta e Cobra Grande…

O Memorial dos Autonomistas conta de tempos de guerra e de independência. E a biblioteca, além de oferecer livros e vídeos tem exposições permanentes e temporárias. E para o futuro já teremos mais, pois o estado se prepara para construir o maior planetário da América.

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Biblioteca da Floresta

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Entardece quando volto do Centro, onde conheci a Catedral e o Palácio do Governo, abertos para visitação. O céu começa a desbotar e resolvo apreciar a despedida do dia na última sombra da gameleira. Ao longe os carros atravessam a ponte. De um lado pequenas canoas deslizam pelo rio ao mesmo ritmo que as pessoas caminham no calçadão para manter a forma. Por cima de todos uma enorme bandeira do Acre tremula. Não está no meio do caminho, mas é o “caminho do meio”, estado que tenta mesclar preservação e desenvolvimento, futuro e passado, segurança e inovação. Tomara que possa se tornar um exemplo para todo o país.

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20 comentários Adicione o seu

  1. Everardo Lopes disse:

    amigo da paz altamiro, bom dia.

    muito legal! você sabe perceber as várias dimensões
    dessa civilização, muito bacana. Essa senssilibilidade
    está na capacidade de abrir os fluxos de todos os sentidos.
    muita paz
    everardo

  2. Lídia Pantoja disse:

    Nossa marido, a cada dia vc melhora mais!!
    Tá muito bom! Adorei!
    Acho que Norminha vai gostar tbm!!!
    Com muitas saudadessss!!!!

  3. Norma Rocha disse:

    Oi Querido amigo!
    Você não sabe o quanto fiquei feliz em ver e ler seu documentário sobre o Acre. Nossa, você estava inspirado… concordo plenamente.
    Até agora estou “anestesiada” com a passagem de vocês por aquí . Parece
    que foi um cometa de tão rápido. Confesso que foi a melhor coisa que me aconteceu até o momento, sem contar o presente antecipado de aniversário que ganhei. Deus foi muito bom comigo.
    Espero que a próxima vinda seja com mais tempo. As portas estão sempre abertas, o passaporte já foi carimbado. A familia já aprovou.
    Bjão a toda familia feliz.

  4. Wesleandra Escanferla disse:

    Oi Alta, vc realmente é incrivel!!!! Sabia que te admiro muito ? A sua inteligencia e o seu conhecimento deixa vc ainda mais interessante…. adorei a materia. bjos p vc

  5. André Torricelli disse:

    Altamiro,
    Ja estive em Rondonia tambem, em Cacoal, onde existe uma aldeia dos Cinta Larga.
    Torri

  6. Eduardo Campos disse:

    Grannnnde Altamiro, li e re-li a sua descrição sobre o Acre, este é um lugar que gostaria de conhecer, mas a ignorância me deu esperanças de somente encontrar florestas e mais florestas e não pastos e mais pastos. Eu estive no Jalapão a uns 9 anos atrás e voltei no ano passado e tive a mesma visão que você. Onde havia florestas agora é só pasto, não propriamente dito de Jalapão, mas no Tocantins como um todo.

  7. Moacir Stareosta disse:

    pÔ aLTAMIRO, COMO A GENTE É INCULTO, NÃO CONHECESSE QUASE NADA DE NOSSO PRÓPRIO PAÍS.
    EU TINHA UMA IMAGEM MUITO DESFOCADO DO ACRE.
    AGUARDO A FOTO DO CONGRESSO, NÃO ESQUEÇA DE TE LEMBRAR DA REDE DE TUCUN, TÁ VIRANDO FOLCLORE, MAS UM DIA TIRAREMOS FOTOS E FESTEJAREMOS A DATA DA ENTREGA DE TÃO SONHADO PRESENTE, QUEM SABE DAQUI ALGUNS ANOS…RSRSRRSRSRRSRSRSRSSSSSS EM ALGUM ACAMPAMENTO OU CONGRESSO ESCOTEIRO,,,,,,,

    AGORA MORO EM FLORIPA,
    ABRAÇÃO OU “QUEBRA COSTELAS” COMO DIZEM OS GAÚCHOS….

  8. Daucy Monteiro disse:

    Querido Altamiro,
    Viajo ao ler suas impressões. Elas não poderão fcar nos e-mails e no site. Elas precisam ir para um livro.
    Daucy

  9. Vitor Augusto da Silva disse:

    Lindas fotos meu amigo bela cidade

  10. Edna Dinelli disse:

    Altamiro,

    Como você é chic, agora está faltando o livro, não esqueci…risos.

    Obrigada, pela oportunidade que você dá a tantas pessoas de conhecer a Amazônia através das suas viagens, isso é muuuito legal.

    Abraços

    Edna

  11. Olair Rafael disse:

    Olá
    Altamiro
    Saudações!

  12. Cristina Travassos disse:

    Oi Altamiro, sempre recebo seus relatos com muita curiosidade e satisfação.
    Boa sorte e bons momentos na nova etapa.
    Hoje estamos todos votando e torcendo para que ganhem aqueles comprometidos com um Brasil melhor para todos.
    Abraço…..Cris

  13. Erina Y disse:

    Olá Altamiro! Tudo bem?
    Poxa, que legal! Mais uma etapa concluída! Pra onde vc vai agora?
    Leio com muito carinho seus e-mails, mas confesso que nunca acessei o seu Blog… Não por falta de interesse, por falta de tempo mesmo…
    Bj
    Erina

  14. Maria José Foeger disse:

    Oi Altamiro,
    Que maravilha receber essas notícias com fotos encantadoras! Que inveja!!! Queria muito viver uma experiência como esta, quem sabe um dia….
    Queria te pedir autorização para usar o texto do email que vc me enviou e que fala sobre uma reunião do Conselho Municipal de Saúde em que vc participou numa aldeia indígena. É para trabalhar no curso de Especialização em Atenção Primária à Saúde que estamos oferecendo aqui na ESFA, na disciplina de Controle Social. Achei o relato muito interessante, principalmente a fala dos índios sobre a vacina H1N1, quando disseram que acreditam na verdade, e se tinham recebido o email, era porque deveria ser verdade. Fantástica essa colocação! Fico me perguntando sempre que são os povos civilizados mesmo?
    Aguardo seu retorno e agradeço pela atenção de me enviar esses textos maravilhosos!
    Parabéns pelo trabalho!
    Abraços.
    Maria José Foeger

  15. Olá Altamiro,
    finalmente fiz o que há tempos queria fazer: republicar um “Impressões Amazônicas” no blog O Aventureiro.
    Está feito.
    O post será publicado amanhã, 09/10, a partir das 12h30. Espero que goste!
    http://www.aventureiro.blog.br/2010/10/qual-e-a-sua-impressao-sobre-a-amazonia/
    Caso ache que precisamos editar alguma coisa, é só avisar.
    Agradeço mais uma vez por compartilhar com a gente seus relatos!
    Abraços e boas escritas,
    Mateus

  16. Maurício Moutinho disse:

    Obrigado por mais este Impressões Amazônicas… Muito bom.
    No trecho “Lutas com peruanos, com indígenas, com animais selvagens, com rios caudalosos, com doenças, com outros homens.” não seria lutas com bolivianos?
    abs
    Mauricio Moutinho

  17. Delma Lobo disse:

    Obrigado querido amigo!
    Vamos aguardar, com grandes expectativas, os posts sobre os Wai Wai.
    grande abraço
    dos amigos
    Delma e Robinson

  18. Luciana Barbosa disse:

    Olá, Altamiro!!!
    Adoro receber os e-mails com os relatos das suas aventuras. E o seu Blog então está cada vez melhor… é praticamente uma viagem virtual.
    Eu também achava que existia um Rio Branco no Acre…RSRSRS… Fique com DEUS!
    Ah, quando estiver pelo HCSA me procure. Quero conversar com vc sobre o Tracoma nas áreas indígenas.
    Abraço!!!
    Luciana

  19. Ricardo Coelho disse:

    Caro Altamiro,
    Hoje vim a ler essa “Impressão”! Maravilhosa como sempre!
    Quando vi o título da foto que você estava tomando café com Juvenal Antunes, levei um susto: “ele é vivo”? – pensei. “E Altamiro ainda está tomando café com ele…?” – acrescentei.
    Ao ver a foto, ri! Depois que ele voltar ao Rio, vai bater um papo com o Carlos Drumond de Andrade em Copacabana!
    Um grande abraço e Sempre Alerta,
    Ricardo

  20. Adelma Figueiredo disse:

    cada vez vc escreve melhor, excelente seu artigo,
    um grande bj para voce e lidia

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