Impressões Amazônicas 7

03 maio 2005

Os meus amigos já estavam ficando preocupados comigo, afinal, após dois meses amazônicos, eu ainda não havia provado o gosto real da Amazonia local. Índios? Civilizados. Florestas? Somente da janela do avião. Feras? Nem sinal. Minha maior aventura havia sido ir ao Peru em uma viagem onde a maior radicalidade foi enfrentar o banheiro do hotel, como mostrei por fotos para ninguém achar que eu estava exagerando.

Pois eis que esta semana mostrei a que vim!!! Enfrentei os animais mais perigosos da floresta e dormi a céu aberto, no sítio de uma amiga, em uma rede!!! Carapanã é o nome da fera que assusta a região. Os mais perigosos, temidos e odiados. Índios caceteiros?? Só no meio do vale do javari. Onças?? Nem são muitas… E neste dia entendi porque eles são pequenos… porque se fossem do tamanho de onças não haveria ser humano vivo. Fiquei tranqüilo somente porque a doação de sangue hoje em dia pode ser trimestral, e já fazia 3 meses que não doava… afinal, foram mais de 100 picadas. Sorte eu não ser alérgico.Bem, mas valeu. A noite estava linda, com uma lua incomparável, minha primeira lua amazônica, e meus amigos sabem como gosto de luas!! Além disso, encarei como uma preparação para o dia que for para a floresta mesmo e encontrar os terríveis piums. O resto dos “estrangeiros” daqui ficou horrorizado, e alguns já juraram não mais voltar lá. Eu vou providenciar um mosquiteiro para rede, mas… não vejo a hora de voltar lá e poder ver as estrelas durante a lua nova. Aliás… dentro do igarapé onde fiquei por algum tempo não havia pernilongo algum… somente o reflexo da lua… e algumas sanguessugas… mas estas não atrapalharam, pois não gostam de grudar em perna peluda… he! he! he!

Tirando esta parte de aventura, mas um pouco da dura realidade. Aqui tem um assentamento com cerca de 16 anos. Seria um avô dos MST, pois já tem a terra, embora sem o título de propriedade, há algum tempo. Este pessoal mora a mais de três horas de caminhada da cidade, em estrada intransitável para veículos de 4 rodas 90% do ano e 2 rodas 50% do ano. Bem, mesmo assim foi construída uma escola lá, que é a maior da região rural. Segundo as mães dos pacientes, é linda e muito bem feita, só que… depois que a escola ficou pronta tem chovido tanto que nenhum carro conseguiu ir lá, e então ela está pronta desde o início do ano sem ser inaugurada porque não tem NADA dentro… não chega nada…. E o povo ainda reclama das escolas daí.

Falando em coisas diferentes, vejam só este triste exemplo de problema social grave que chega aqui de formas diferentes. Fui chamado no hospital para ver uma menina de 4 meses e 2800g, peso de um recém-nascido. Bem, a história da bebê, super-desnutrida era triste como tantas outras do Sulzão maravilha, mas com pitadas do bizarro local. A mãe não queria a criança e deu para uma outra moça da comunidade indígena. Como esta já estava amamentando um filho, não haveria problema alimentar para os dois. Acontece que o avô da criança queria ficar com ela, mas como a mãe já havia dado e a outra não queria devolver, o avô lançou um feitiço. Como a menina começou a ter diarréia e pústulas na pele, na mesma hora foi atribuido ao feitiço. Um contra-feitiço foi feito (ou algo assim, não sei o nome) mas não deu resultado. Assim a mãe adotiva não teve dúvidas. Criança enfeitiçada ela não queria, e devolveu para a mãe. Como a criança estava muito ruim, nem o avô quis mais, e lá está ela no hospital, sob meus cuidados.

A convivência com os índios é bem interessante. Eles são muito organizados aqui, uma comunidade bem grande em vários municípios dos 3 países da fronteira. O CGTT (Conselho Geral da Tribo Tikuna) é a primeira ONG totalmente indígena do país, com muitos anos de atuação, ligada a preservação cultural, a saúde e a demarcação das terras. Eles tem 3 vereadores aqui na cidade e são marcantes por todo lado. São um povo que preserva muito pouco das tradições, sendo algumas das mais interessantes os hábitos culinários, as famílias grandes, as lendas, os rezadores e raizeiros alguns deuses que “convivem” pacificamente com a igreja católica (50% dos Tikunas) e não tão pacificamente com as seitas evangélicas (israelitas, igreja da cruz, assembléias, entre outros – 50% restante deles). Além disso mantém o Ritual da Moça Nova, introdução da jovem adolescente que acabou de menstruar na sociedade. Antigamente a menina tinha todo seu cabelo ARRANCADO literalmente na mão pela sua mãe, tias e avós e não podia dar um choro. Hoje são arrancados alguns fios e o restante cortado com tesoura. Novos tempos…

Mas o interessante é que enquanto os Tikunas são assim organizados, há também os Cocamas, tribo que praticamente se extinguiu e que era secundária aos Tikunas. Este era um povo que não assumia suas raízes e praticamente foi assimilado pelos não indígenas, aqui chamados de civilizados”. Bem, a partir do momento que os Tikunas começaram a ganhar espaço, regularizar terras, ganhar dinheiro, começaram a ressurgir Cocamas. Há cocamas imigrantes de nordestinos, cocamas de cabelo claro, até eu já estou pensando em me “indianizar” e virar Cocama. Posso dizer que sou neto de espanhol… Marco Cama. Quem sabe não me aceitam!

E ao mesmo tempo que muita gente quer virar índio, na cidade tem gente com cabelo de índio, olho de índio, pele de índio, cara de índio, sobrenome de índio e quando a gente pergunta. “Mas de que tribo sua família era?” responde na mesma hora que nem tem índio na família… Deve ser tudo alemão…

Bem, por hoje é isso.Se alguém não quiser que eu mande mais, dê um toque que paro de enviar e não fico chateado. Sei que às vezes não dá paciência para ler todo este monte de coisas que eu escrevo. Por outro lado, se alguém quiser que envie para algum conhecido, é só me enviar o e-mail. Eu já estou enviando para várias pessoas que não conheço… Tô me sentindo até o Paulo Coelho… E ainda nem comecei a contar minhas experiências místicas com a chuchuacha!!! há! há! há!

Abraços e até mais!!!

Altamiro

ps – 3 fotos: uma montagem minha no cyber, feita pelo Jesus, um grande amigo de Habana, Cuba. A Edna, que é Tikuna, cozinhando e eu tomando água no Igarapé Palhal com o Joseney.

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4 comentários Adicione o seu

  1. Debora Martins disse:

    Às vezes fico pensando se os índios são assim mesmo, insensíveis ou se é a influência do homem branco… Alguns costumes são meio bizarros, ou não?
    Bjks

  2. Irene Andrade disse:

    Ainda bem que vc sobreviveu a 2005…Nesta semana vajei com vc até maio e fico me perguntando até qdo vc vai escapar da malária! Só se os carapanans comeram os flebótomos…( Estes mesmos são os que carregam a malária não é mesmo?)Já estão em testes a vacina contra malária, e se vc aguentar um pouco mais, daqui a dois anos vc será vacinado…
    Continue com Deus!
    Irene

    1. Altamiro Vilhena disse:

      Oi Irene,

      At agora nada de malria… sangue ruim… risos… tem gente que tem um pouco mais de imunidade, no mesmo? Embora eu sempre tenha estado “por perto”, nunca estive em uma regio onde a malria fosse realmente endemica. A maior parte das comunidades indgenas hoje tem casos espordicos e eu poucas vezes estive em comunidades onde os casos so mais comuns. De qualquer forma, aguardo ansioso a perspectiva da vacinao! Grande abrao e mais uma vez obrigado pela visita,

      Altamiro

  3. Elis disse:

    Bem ..pelo pouco que “me conhece” sabe como meu coração ficou apertado com a estória do bebê…Jesus!!! tão pequeno …ficaria com ele para mim!!!! Acho que por isso tinha resistência a ir em um orfanato…mas dia 18/12 irei…com a família…Depois te conto…Inté.

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