Impressões Amazônicas 8


Vou falar um pouco mais do atendimento das crianças por aqui. Realmente elas são diferentes das crianças que atendi no Sulzão. Tudo bem que já estou habituado com os nomes como Iaritiça, Dhenifin, Harlins Aylen, Adleidiamara e Euriane, embora tenha achado que o Zark deve ter saído de algum videogame, e que Favelino me parece um tanto quanto “pobre demais”, mas… há coisas genuinamente diferentes.
Uma delas é que a maioria absoluta das crianças não tem medo nem de médico e nem de injeções. Elas encaram numa boa e quietas, especialmente as que não são da área mais urbanizada. Também já estou tão habituado a eles não quererem os abaixadores de língua (seria uma heresia eu simplesmente não oferecê-los no Sul) e com o fato deles nunca falarem muito. A maioria na verdade não conversa absolutamente nada, no máximo ri. Aprendi que os Tikuna, inclusive, quando querem dizer “sim”, ou “quero”, simplesmente levantam as sobrancelhas, o que é um movimento beeeem sutil, que na maioria das vezes não percebo, somente a mãe. Mesmo assim atendi uma criança que me provocou boas risadas e me mostrou como realmente são bem diferentes.Eu como sempre falei “abre a boca de jacaré!”. A menina abriu e depois disse. “Eu gosto de jacaré”. Eu fiquei surpreso, pois seria algo que uma menina do Sul nunca diria, ou porque nunca viu ou porque é um animal realmente feio. Aí ela completou…. “é gostoso!!”. E eu caí na risada.

Além do jacaré meu repertório de comida local também se ampliou. Recentemente provei o ingá (enorme, um verdadeiro cajado) e uma outra fruta que não conheço o nome ainda. Da sapota eu acho que já falei, não? Uma prima da manga bem docinha, mas bem fibrosa. E estamos entrando em época de jambo, e as frutas começam a aparecer em tudo que é lugar, junto com os buritis. Além disso provei a pupeca de paca. Uma delícia, é a carne feita assada na folha de pacova. Normalmente é feita de peixe, mas o Pelado, que é o caseiro dos meus amigos gosta de inovar. Já pensamos em abrir uma pupecaria. Alguém se habilita para sócio??

Voltando aos índios, tudo é meio diferente para eles. As oportunidades são outras, e por vezes é como o governo resolvesse compensar os anos de desserviço e tanto que ainda faz para oprimir. Os indígenas daqui são realmente aculturados e aproveitam estas oportunidades talvez mais do que outros povos. Ao menos eles mantém um ótimo vínculo, talvez o mais importante, que é a sua linguagem, algo completamente inentendível, com sons que para mim se aproximam do japonês. Falei da questão de oportunidades porque 3 indígenas daqui estarão indo em junho para Cuba, fazer faculdade de medicina. Os requisitos? Ser indígena, ter ensino médio completo e serem indicados por sua ONG. Bem mais fácil do que o percurso que os demais brasileiros devem seguir, não? Em Cuba terão casa e comida por conta, o que não é nada mal, e um sonho para a maioria de nós, que nem em sistema de cotas consegue entrar em uma faculdade.

Uma questão que tem me preocupado aqui é a das roupas. Penso em organizar uma sociedade protetora das roupas. Outro dia estava passando na rua e vi uma mulher baixando um porrete no chão. Achei que seria uma cobra ou algum bicho, mas quando me aproximei notei que ela espancava as próprias roupas… Incrível o sistema de lavagem e secagem aqui. Não é à toa que em duas lavagens roupas minhas não tão velhas já estão com cara de beeeem usadas. Tudo bem que cheguei a levar uma blusa que havia comprado em Niterói… antes de 97… mas esta não conta… risos!!

Ontem estava na praça da cidade com meus amigos e suas crianças estavam passando uma rifa para ajudar na regularização do Projeto Jacarezinho (ProJac), associação de recreativo-cultural para crianças e jovens da cidade. Eu comprei duas para dar uma força e quando vi os prêmios dei risadas. Imaginem o que pode ser de prêmio por aqui? Os dois primeiros sorteados ganhariam um frango assado e um frango vivo cada, depois haviam mais duas redes de dormir, uma panela de pressão e um par de sandália infantil número 18. Nada como prêmios versáteis para animar a galera a comprar, não? : )

Por fim vou falar um pouco do hospital, já que o Afrânio, grande amigo de Niterói e valoroso colaborador do GEMA me solicitou. Temos um hospital que ficou mais de seis anos sem raio X (só voltou a funcionar na semana passada, com um aparelho novo) mas que faz cirurgias por vezes até de grande porte. Não vou entrar na questão da segurança, higiene ou sobrevida destes pacientes, pois não seria ético, mas… imaginem o que quiserem. O hospital é bem velho, mas muito bom em sua estrutura física. Ele tem uma história interessante de passado e uma outra de presente. Pouco antes da segunda guerra mundial (corrija-me Abdala, meu caro professor de História, caso eu esteja errado) Getúlio Vargas namorava ora com os dirigentes do Eixo, ora com as lideranças dos aliados. Um dos fatores que fez com que o Brasil fosse definitvamente para o lado dos aliados foi a construção da Companhia Siderúrgica Nacional (seria bom para o Brasil e para os EUA que precisavam de aço) e a implantação do CESP, a Companhia Especial de Saúde Pública. Ela foi responsável por vários hospitais de fronteira por este mundão que é o Brasil. Por muito tempo este hospital foi ocupado e gerido pelos militares, até passar às mãos do município. Um dos problemas que temos aqui é a falta de médicos para trabalhar no hospital. Ninguém quer fazer pronto-socorro e a solução por muitas vezes é a contratação de médicos peruanos, colombianos e cubanos, legais em seus países, mas sem título reconhecido aqui no Brasil. Muitos são bons, outros nem tanto. Na mesma situação vem os brasileiros que vão estudar na Bolívia e não conseguem revalidar no Brasil o seu diploma. Aqui conseguem o seu espaço. Há algum tempo Benjamin Constant vem tentando interromper esta prática. Recentemente a situação se tornou insustentável pelo atendimento no hospital e pela falta de médicos interessados. Bem, a opção foi contratar alguns colombianos de Letícia. Veio um time de 3 médicos e uma médica, muito bons, extremamente competentes que assumiu o PS. As condutas eram boas, trocávamos idéias e tudo parecia certo até que… até que a PF entrou em cena. Não porque era médico, mas porque um deles, na verdade o líder do grupo era também líder de “Los Cirurjanos”, como chamou o grupo a imprensa da Colômbia (achei em vários sites da net, inclusive no da Folha de São Paulo). Ele implantava drogas nas pernas das pessoas que então iam para a Europa sem problema algum. Os outros não tinham nada com isso, e nem sabiam, mas foi um escândalo. Aqui, até prove ao contrário, todo mundo tem envolvimento com o tráfico, embora seja tudo muito menos visualizado e violento como no Rio ou mesmo em SP.
Amigos, estarei viajando para um congresso de Bancos de Leite amanhã e só devo voltar na outra semana. Me aguardem com mais notícias. Até lá fiquem com duas fotos… uma da única estrada que sai da cidade… bastante movimentada, rumo a Atalaia do Norte e outra da barraca dos escoteiros… ainda em construção. Barracas iglú, canadense?? O que é isso? O povo dorme de rede.
Abraços e beijos,
Carminha… me espere!!!!
Altamiro

Anúncios

2 comentários Adicione o seu

  1. Debora Martins disse:

    Olha, dos prêmios da rifa, a sandálinha de número 18 é a que vc mais queria ganhar, fala verdade?
    Nem imagino como seja uma consulta com uma criança indiazinha…
    Se com crianças que a gente entende já é difícil…
    Mai uma vez, parabéns pelo seu trabalho!
    Bjinhus

  2. Elis disse:

    Eu, hoje , li sua estória com meu filho Pedro…ele gostou dos prêmios da rifa e caiu na gargalhada e ficou surpreso com a menina que gosta de comer jacaré…acha que ela é um leão disfarçado……rsrsrsrsr. Até a próxima!!!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s