Impressões Amazônicas 9

18 de junho de 2005

Amigos,

Depois de longo e tenebroso inverno, eis que estou de volta. Bem, como sabem, meu sumiço se iniciou quando voei para Brasília, para um Congresso de Aleitamento Materno e depois, quando voltei, com as múltiplas pendências acumuladas, especialmente referentes a questão da eleição do Conselho Tutelar, que eu, como membro do Conselho de Direitos, participei ativamente (e continuo participando na capacitação dos conselheiros).

Na ida a Brasília tive o privilégio, pela primeira vez na vida, de ir escutando uma seleção de musicas realmente boas. Ouvi um especial com Marc Knopfler, vocalista dos Dire Straits. Para quem tem mais ou menos a minha idade sabe como é algo marcante. E na viagem eu vim pensando no que estava fazendo ali… nos amigos que estão ao mesmo tempo tão distantes e tão próximos de mim. Vocês são realmente importantes e fazem parte de minha vida, não deixarão de ser nunca, mesmo se o tempo ou a distância insistirem em dizer não. Mas o que posso dizer… estou feliz. Adoro esta correria. É um sofrimento, uma luta, mas uma grande alegria a sensação de ter muito o que fazer e realmente poder fazer a diferença.

Bem, mas vamos ao que importa. Agradeço a todos que escreveram cobrando novas edições, especialmente a querida Hellen de Juiz de Fora, que enviou seu convite de casamento virtual aos amigos com uma bronca para mim que não estava enviando os Impressões. Seja atendida sua vontade minha cara noiva, a mais recente DCB de MG, com orgulho de todos os amigos!!!

Como estive tempos fora, e atendendo pedidos de alguns amigos, resolvi contar algumas histórias de personagens amazônicos, que deve ser, ocasionalmente, uma seção do Impressões. Também vou começar a contar das festas juninas daqui, muito mais divertidas do que eu poderia imaginar… e viva o Boi Esperança!!!

Acabei de chegar de um “arraiá”. Nesta época a programação de todo final de semana são os “arraiás”. Tem de quinta a domingo, e além dos “arraiá” de bairro, cada escola prepara o seu. Além de churrasquinho, tem mungunzá (canjica), bolo de chocolate, pudim, cocada e refrigerante. Na verdade, um dos pontos altos é a bebida alcólica, mas como eu fui no Arraiá do Projac – Projeto Jacarezinho, que é um projeto educacional para os jovens, e do Grupo Escoteiro Marcelo Maia, não tinha nada com álcool. E mesmo assim a festa correu animada. Eu saí de lá mais de onze horas e ainda nem tinha cara de que ia acabar. O ponto alto da festa foi a entrada do Boi. Assisti o Boi Esperança que é verde e branco. Antes do boi entrar, entram um grande número de personagens: índios de duas tribos, índias de biquinis, o Doutor Cachaça, o Pajé, algumas alegorias com árvores, uma pastora ou algo semelhante, e até uma imagem de Jesus dançando e sambando. Os pontos altos, além do próprio Boi e dos “puxadores do boi” (que me fizeram ver como eu canto bem!!), eram os carros alegóricos. Vieram motorizados, fantásticos. E andavam em cima de carrinhos de mão com um cavalo de força… A participação é bem popular e a gente vê como eles curtem aquilo. E nós, mesmo sem entender muito bem o enredo, participamos também, pois o ritmo é contagiante. Quando entravam os personagens principais, todo mundo batia palma. Bonito de se ver. As escolas tem várias apresentações. Depois as melhores de cada escola se apresentam na Arena. Pois é, aqui tem Arena de Boi, um Boizódromo como os Sambódromos do Rio ou Sampa. Os Bois locais são o Mangangá e o Corajoso, mas este ano não vão sair, pois a prefeitura estava sem verba para investir nesta área.

Depois do relato acima, escrito na empolgação do meu primeiro “arraiá”, ontem fui em um da maior escola municipal local. Foi bem bacana, com uma quadrilha enorme, bem caracterizada e grande empolgação dos jovens e dos participantes. O mais legal é que por ser o único boi da cidade, o Esperança, dos Escoteiros e do Projac foi convidado. Os bois da cidade estão se sentindo importantes, e sem o “patrocínio” da prefeitura, ninguém se ‘coçou” para fazer acontecer. Resultado, toda a população canta e ri com o Boi Esperança, inclusive o prefeito e a maior parte dos secretários municipais, que estavam lá prestigiando, comendo prato feito com vatapá, tomando caldo de galinha e jogando no bingo de um par de colchas madrigal.

Carro Alegórico

Pajé dançando

Quadrilha

Personagens Amazônicos

Seu Zé foi trabalhador de derrubar muita madeira. Conheci ele quando puxou papo comigo no caminho para o sítio dos meus amigos Flávia e Joseney. Miúdo, tez morena, passos ligeiros, começou a conversar certamente achando estranho aquele branquelo andando na estrada debaixo do sol. Me contava que a melhor coisa da velhice é ser aposentado, pois passava a ser considerado um homem de respeito e de crédito. Acima de tudo de crédito, pelo que pude entender. Ele conta que quando ganhava dinheiro com a madeira, ninguém fazia nada fiado, mas agora que tinha seu salário todo mês certinho, podia fazer crédito onde quisesse. Ele conta também que não gosta disso, e só “pegou empréstimo” duas vezes, porque a gerente do banco falou que tinha uma “ordem da presidência” e que ele deveria pegar o empréstimo. Assim, orgulhoso ele me contou que cumpriu a ordem do presidente do banco. Seu Zé espera ainda a indenização do INCRA, pois foi expulso da terra onde sempre trabalhou quando virou área indígena do Javari. Depois disso, para não ficar parado, faz um bico na terra de um amigo, cuidando da plantação, pois “homem de verdade só para quando morre”.

Eu e seu Zé!


Seu Antonildo é homem de família. Grande família para dizer a verdade. Segundo ele, conhecidos “são uns 20, mas um homem sempre tem mais filhos por aí, não é Doutor?” Ele é o motorista da Secretaria de Saúde, e sempre me leva para um lado e para o outro. Na verdade não sem um certo temor, afinal o que dizer de um senhor de mais de setenta anos que “já operei a vista e melhorei, mas não sou todo bom não” e que não tira nem férias porque se ficar sem fazer nada em casa “um homem fica louco”. Como notam, seu Antonildo é um homem de frases que dizem tudo. “Doutor, no final de semana o meu negócio é balançar o esqueleto, ficar em casa não está com nada.”. Animado, só reclama do achatamento salarial que teve, pois “no arraiá sempre tem que se comprar um refrigerante ou uma cerveja para a dama, senão não se consegue nada”. Homem de visão. São deles as célebres frases da cultura benjaminense, saída dos pouco mais de 12 dentes que persistem em se manter em sua boca: “Doutor, não use este cinto não. Já vi homem morrer porque ficou preso em um troço destes” – falando do meu hábito de usar cinto de segurança. “Eu não sou médico, mas sempre curo as mulheres que vão lá em casa com dor de rim. Eu tenho uma receita infalível. Chá de jamelão com diclofenaco. Levo muita fé nesta mistura.” – eu também levo muita fé no antinflamatório para a dor. Homem de coração, para ele “sempre tem lugar para mulher no meu carro”, mas não se nega a desviar do caminho para levar uma senhora doente ou uma criança com problema. Homem popular, é ele que já levou vários “maluquinhos” ou “aleijadinhos”, segundo as palavras deste misto de motorista e agente de saúde, para o meu consultório. E de valor elevado, ele diz que não aguenta mais estas meninas (se referindo as meninas de menos de quinze anos) indo lá em casa indo me dar o que eu só gosto com mulher mais velha. Homem de ouvidos atentos, há que se prestar muita atenção no que se fala no carro da secretaria, pois dizem que seu Ant, como popularmente o chamamos, já está sendo cotado para trabalhar como reporter da rádio comunitária pelo número de informações que coleta. Homem corajoso, antes de chegar a Benjamin Constant, seu Ant era mecânico da empresa de energia do Amazonas e vivia voando de monomotor… “Caí 3 vezes, mas só em uma eu quebrei umas costelas”. Depois disso achou que não era gato e não teria sete vidas e resolveu desistir, se mudando para onde tinha visto as mulheres mais bonitas. No dia que ouvi isso percebi que o seu problema de vista era bem antigo. Por fim lembro minha maior aventura com Seu Ant, quando estávamos visitando as áreas dos agentes de saúde. Pegando um caminho alternativo ele resolveu passar por uma valeta com nossa parati. Achando meio funda eu ainda disse: “o Senhor quer que eu saia para ver se dá?” “Precisa não Doutor, o carro é alto!” Crash!! Direto pro buraco. “Pôxa… o buraco era maior do que o carro”… e foram 30 minutos esperando o filho dele chegar com um caminhão para nos tirar de lá.

Finalizo com uma frase de Fernando Pessoa, enviada pela minha cunhada Bia, que hoje mora na Flórida e está gravidíssima. ” Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver do Universo… Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer, Porque eu sou do tamanho do que vejo E não do tamanho da minha altura… ”
Acho que tem tudo a ver com o meu momento, com o momento da Bia e com o que desejo a cada um de vocês… se sentirem do tamanho de sua visão.
Abraços e beijos,
Altamiro
ps – fotos: O carro alegórico, Eu e seu Zé na estrada, O pajé do boi e a Quadrilha na Arena de Benjamin.Agora estou bem, turbinado com uma bela digital!!

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2 comentários Adicione o seu

  1. Debora Martins disse:

    Imagina cada figura e cada história que eles têm pra contar…
    Só esse mundão de meu Deus mesmo!
    Bjinhus

  2. Elis disse:

    É parece que tem muita “figura” por ai….Parece muito animado mesmo o arraiá!!!!
    Estou gostando da leitura….até a próxima.

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