Impressões Amazônicas

6 de março de 2005
Amigos,

Para muitos será uma surpresa, mas para outros que já sabem, é uma forma de diminuir um pouco a curiosidade e contar um pouco sobre este mundão. Após uma escala em Manaus, cá estou eu em Benjamim Constant, beeeeem longe de vocês. Não sabem onde fica? Não precisam procurar muito. Peguem o mapa do Brasil… imaginem lá no extremo esquerdo, um pouco acima do Acre, divisa com Colômbia e Peru. Aqui estou sem prazo para ir embora e entusiasmado com o trabalho. Como a divisa com os hermanos peruanos não é por terra, não adianta fazerem piadinha que posso cair no Peru. O perigo é resolver visitar o país a nado… e após mergulhar sair de cara no Peru. Aliás, não só no Peru, mas na Islandia, que é o nome da cidade aqui em frente.
A perspectiva é ganhar bem, mas também trabalhar muito. Há muito, muito, muito o que fazer. Esta semana não atendi ninguém, mas já desenvolvi o Programa Municipal de Saúde Infantil, o Programa Municipal de DST/AIDS um programa de integração saúde/escola e algumas fichas que vão me ajudar. Não pensem que acabou, pois agora estou desenvolvendo o treinamento que faremos com agentes de saúde, professores e depois com voluntários dentro da comunidade indígena, entre os adolescentes e com os profissionais do sexo. Há muito o que fazer, mas realmente será interessante. No final do mes inclusive já estarei em Manaus como coordenador de DST daqui do município.
Bem, mas não só de trabalho se vive. Enquanto espero minha casa ser reformada estou em um hotel. É simplezinho mas tem tudo: tv (que nunca liguei), ar condicionado (sempre ligado) + ventilador, banheiro sem aquecimento, geladeira. É bonzinho, mas quando chove muito, alaga aqui dentro, não pelo teto, mas pela porta… pois é… pois o corredor é perto da porta, o que é suficiente para alagar.
Não pensem que exagero não. Muitas casas usam a água da chuva para tudo… banho, limpeza, e é o que alimenta quase 90% das cisternas locais.
A chuva é exatamente como falam. Chove todo dia e muito. Mas muito é muito mesmo. Aliás, não é muito. É muito, muito, muito e mais um pouquinho. Enquanto escrevo o mundo desaba lá fora. Para terem uma idéia, ontem que choveu um pouco mais, enchi uma big coke na chuva em cinco minutos. Aliás… se continuar assim, acho que vou precisar de um barco. Este é um dos problemas… como as fossas não são das melhores, com esta água toda… tudo transborda, então…tudo se mistura… e tome verminose e hepatite A. Quanto ao calor é forte e constante, mas para quem passou uma temporada em Blumenau no verão, pelo menos por enquanto é tolerável.
A floresta… ah a floresta. Vista de cima é maravilhosa. Linda, tudo verde cortada pelos rios acobreados. Adorei. Já aqui não se vê muito. Quero dizer, quando a gente sai de Tabatinga (onde pousa o boeing) e vem para cá de barco (40 minutos, sem estrada de terra) viemos as margens da floresta. É bem bonito, mas não cheguei muito próximo. Então ainda espero um contato mais íntimo com a maior floresta do mundo.
A cidade é bem simples: uma loteria, um banco, um correio, um cartório, um campo, um boizódromo. Algumas locadoras com 50% dos dvds piratas, um cyber café por rádio, uma usina de energia a diesel, que fica atrás do hotel, e se o ar condicionado não fosse barulhento e não tivesse a chuva noturna eu ficaria ouvindo um rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr a noite toda. Posto não tem, até porque carro só tem uns 20, 30 sei lá para uma população de 27 mil pessoa. Aliás, hoje que era sábado vi um pouco mais de carros.. quando fui almoçar vi dois carros um atrás do outro. O maior engarrafamento que já havia visto nestas bandas. Como não tem carro, nada de posto. Aliás, Tabatinga com mais de cinquenta mil pessoas também não tem posto de gasolina… porque todo mundo ia comprar gasolina na Colombia, bem mais barato e onde se chega atravessando a rua…. simples, não? Para resolver o problema da gasolina, por aqui existe muuuuito comércio de gasolina na frente das casas. Ficam lá as placas… “Cocão 4,00″ ou “Garrafão 7,00″. Isto porque, apesar de não haver carro nenhum, tem cerca de um milhão e quatroscentas mil motos que dividem o espaço com umas 10 bicicletas… afinal, por aqui fazer exercício não é chique…
Minha senhoria é ótima. Dona Venancia é ótima, embora tenha a perna mais peluda que a minha. Embaixo da pousada onde estou (na verdade não é um hotel) ela tem uma loja de material de construção e uma loja de roupas e sapatos. Já descobri que ela também é dona da maior casa noturna da região, a Beer Night. Conversando com ela me contou que os filhos moram em São Luiz, onde fazem faculdade e para onde ela viajará na segunda-feira. Ela me conta que além de “algumas casas alugadas por aqui, e algum negócio” ela tem também loja em Tabatinga, casas em Manaus e São Luiz. Me conta que trabalha com negócios há muito tempo e eu brinco. “A senhora é uma multi-empresária Dona Venancia” e ela responde “Pois é meu filho… há muito tempo que eu gosto de ganhar dinheiro”. Mesmo assim ela não perde os hábitos, não tem ar condicionado em casa e as portas e janelas ficam abertas dia e noite, com as motos do lado de fora.
Aqui me senti feliz por um motivo. Descobri que Altamiro é um nome ótimo e simples. Obrigado mamãe. Afinal, eu poderia me chamar Aldenio, Olzinei, Dionelson, Alzenides ou, se fosse mulher Urdilaine, Rosacléa ou algo parecido… Não há bom gosto… FAlando em gosto… bem, descobri tardiamente que as mulheres de Jacareí são liindas… poderiam se candidatar a miss por aqui… risos.
Para quem gosta de animais, os cães são fantásticos. Há uma raça própria aqui. Não imaginem que falo da Street Dog ou de algo parecido… Não, eles são todos no mesmo padrão, o legítimo Sarnaround Amazonico. Alias… sarna all around… Todos… Todos.. Todos… Aliás, o efeito na pelagem é lindo… parecem tapete que a traça comeu. Alzira aqui teria muito trabalho.
A alimentação é diferente. De verduras apenas pepino, tomate e cebola. Dizem que há épocas melhores… espero. Aipim ou Mandioca, como preferirem tem todo dia, com um tal de feijão de praia (praia?? onde?). Frutas? Alguma maçã e muuuuuita banana. Tem banana de tudo que é tamanho a partir de 20 cm. Acho que é por isso que a comunidade gay também é grande. Além disso tem muito açaí, e bem mais gostoso do que o que se toma aí no Sul e algumas outras frutas que não consegui identificar ainda. A decepção é por conta do guaraná, que nem tem por estas bandas… A carne é variada. Já comi pirarucu várias vezes, êta peixão bom. Uma amiga cria um tracajá, aquela tartaruga de rio, dentro de um tanque. Faz igual o pessoal daí faz com frango ou porquinho. Está esperando crescer para fazer um assado (é que assim é mais barato, uma grande é muito cara). Já comi porco do mato, mas ainda não provei veado, paca e jacaré, que também tem bastante por aqui.
Os índios daqui são quase todos da etnia Tikuna. São como os bolivianos… todos iguais. Ainda não sei o nome, mas acho que se forem Tikunas peruanos e chamarmos de Juan Carlos todos devem atender… depois dizem que japones é tudo igual. No meu trabalho vou ter que visitar as comunidades. Isto é algo que me deixa entusiasmado. Estive conversando com uma enfermeira da funai e ela diz que o relacionamento não é fácil, mas a cultura é realmente fascinante e diferente.
Bem, o que falta contar? Estou com saudades de todos, em um lugar cheio de rubro-negros, com dois grupos escoteiros, sendo um em vias de re-estruturação e outro de férias ainda (as aulas aqui só começam no dia 7), mais grupos em Tabatinga e em Leticia (andei pensando em me tornar Scout de Colombia) e muitos projetos. Se alguém quiser saber algo mais, é só perguntar.
Abraços a todos,
Altamiro

ps – se algum conhecido falar que nao recebeu, peça para me escreverem, pois o meu address book do webmail é bem incompleto.

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5 comentários Adicione o seu

  1. Debora Martins disse:

    Nossa, é bom começar do começo.
    Vou ler tudo, desde o episódio piloto!
    Estou ansiosa pra ler mais…
    Bjks

  2. Sam disse:

    ALTAMIRO

    Estou adorando ler suas impressões, como são maravilhosas suas vivências em meio a tantos lugares. Admiro muito seu espirito desbravador.

    Que DEUS te ilumine sempre por onde quer q estejas.
    Abraços.

  3. Elis disse:

    Queridão….Comecei pelo começo..rsrsrr
    Benjamin Constant….agora leio com o mapa aberto e prestando atenção atenção no nome das tribos e municípios….a descrição é detalhada e cheia de “impressões”
    você é mesmo um aventureiro…..vou continuar a ler…inté
    Elis Da Gama

  4. rafael ramos disse:

    Carai véi! Eu estava navegando pela web, a essa hora da madrugada, conforme sempre faço, procurando por meu passado aventureiro, comunidades e lugares visitados (até os 20 anos) de quando fazia biologia e ia a campo para tentar resolver as problemáticas locais.
    O trabalho que faz é muito massa.. estou a quatro dias (noites) lendo detalhes e pormenorizando a riqueza de seus textos, me recordando das breves aventuras q também vivi- Aventuras e desventuras, descobertas incríveis com o povo humilde, que recebe de coração aberto e etc.
    Hoje sou advogado (tenho 25) e, me deparo com essa gente da “cidade grande” que pra mim, nada sabem, nada fazem, não vivem, apenas deixam a vida levar- Rio de Janeiro; que não sabem o significado da palavra “viver”, não conduzem suas próprias vidas. Bem, espero que isso também não ocorra comigo, por isso estou tentando achar um espaço para meu trabalho fora dessa loucura também. Trabalho de campo sempre foi meu forte, pena que Direito Ambiental é feito na cidade, teoria e sala de aula… rsrsrsrs..
    Parabéns, tens mais um admirador.
    Publique esse teu trabalho em livro impresso, será best seler. Abraços.
    Rafael Ramos

  5. Altamiro, depois de anos recebendo as suas Impressões, resolvi ler o primeirão e ri muito, principalmente da analogia que você fez com a raca de cachorro e o tapete persa. Nota-se que realmente é a sua primeira impressão, parecida com a de muitos de nos de outras cidades. Acida, satírica, critica e com muito bom humor. As impressões atuais são mais amenas, poéticas e com um ar de quem já esta acostumado com as peculiaridades da região, mas igualmente interessantes e muito, mas muito bem escritas e descritas.Sendo assim, isto tem que ser divulgado, repassarei para todos da minha rede social ate você resolver publicar as suas Impressões Amazônicas.Quero rir mais,então irei começar pelo principio.
    Bjs, Dionisia Nagahama

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