Impressões Atalaienses 26

maio de 2006

Atalaia do Norte. Este nome não me saía da cabeça desde que cheguei ao Amazonas, afinal, se Benjamin é o fim do mundo, Atalaia fica depois que ele acabou. Além disso é a região dos índios Matis que se caracterizam como “onças” e dos Korubo, guerreiros valentes de uma tribo que não mantém contato permanente, conhecida também como “caceteiros”. O problema é que embora sejam cidades vizinhas, o fluxo só se dá de barco, de moto ou jipe, na época seca e se não chover. Tentei ir a pé, mas nunca consegui um companheiro de trilha, com as alegações mais diversas: “tem onça no caminho”, “o caminho tem traficante e assaltante”, “os índios atacam”.

Pouco tempo atrás descobri que seu Getúlio, mototaxista que vive “me dando um empurrãozinho” em troca das consultas que faço em seus filhos, me contou que poderia me levar até Atalaia, onde mora parte de sua família, em uma rabeta (motor de pouca potência, também chamado de pec-pec pelo ruído incessante e irritante que produz). Como o rio está bem cheio, forma “furos” que reduzem a viagem a cerca de 3 horas ao invés das 5 habituais com um motor destes. Os furos são verdadeiras estradas que surgem quando os rios sobem alegando as matas de várzea.


No dia marcado, lá estava eu, iniciando viagem em um barco de madeira comprido, em companhia de duas amigas, Seu Getúlio, a esposa, duas filhas e dois filhos de pouco mais de um ano de idade que mamam no peito (um é um sobrinho que foi adotado).

A viagem começa e logo compreendo porque estes barcos são conhecidos como “pec-pecs”. O ruído é incessante e prejudica toda conversação. Logo alcançamos Islândia, território peruano que já foi palco de outras Impressões. Hoje, devido a chuva está com água quase na altura das palafitas e a ver postes dentro da água é, no mínimo, bizarra.

O caminho é bonito, e passamos por touceiras de camu-camu, fruta rica em vitamina C. A fauna, fora um boto ocasional, não dá as caras. A Amazônia é assim: a fauna está lá, mas escondida, e não há como ver os animais camuflados entre a vegetação cerrada.

Passamos por outros barcos de pescadores, ribeirinhos de mudança e até por uma balsa de madeira. Não sei se posso chamar de balsa, pois na verdade são inúmeros troncos de árvore amarrados que vem boiando. Sobre os troncos algumas barracas de lona plástica e alguns homens. É madeira tirada de rio acima que, independente do lado de onde saiu se torna “peruana”. Seu Getúlio, ele mesmo antigo madeireiro explica: “Uma margem do rio é brasileira, outra peruana. No Brasil não pode derrubar nada, no Peru pode, então, como não tem fiscalização, tudo que é derrubado no Brasil logo atravessa de lado para virar peruano”. Os homens vivem nesta espécie de balsa por mais de dez dias, dormindo e morando literalmente sobre troncos.


De repente, em meio a manhã ensolarada, escuto seu Getúlio gritar: “Lá vem ela!”. Não entendo bem do que se trata até olhar para trás e ver, nitidamente uma mancha cinza no céu que se aproxima com velocidade impressionante: a chuva. A família do seu Getúlio não perde tempo, e a esposa puxa uma lona enorme que coloca sobre as crianças. Para sossegar os menores, um logo é colocado em cada seio e… tudo resolvido. A chuva cai e o barco continua. O ribeirinho é tão adaptado ao rio e as chuvas que nada parece atrapalha-lo.
A chuva acaba e já estamos quase chegando no nosso destino, uma comunidade chamada Palmari, onde há um grande hotel de selva e onde vive a família de meu piloto. Chegamos em meio a um paná-paná (não sabe o que é? Altamiro também é cultura: paná-paná é o coletivo de borboletas) de borboletas amarelas. Lindo em um final de chuva com o céu todo cinza.

Desembarcamos em uma casa bastante simples onde uma mulher (ex-esposa e atual cunhada do Seu Ge), três adolescentes e umas doze crianças comiam, sentados em uma varanda de madeira. Cardápio? Um panelão de açaí bem grosso e fresco e peixe frito. Se fosse no Sul acho que esconderiam a comida. Como estávamos no Norte, não esconderam, ofereceram e deu para todo mundo comer com fartura. Delícia. Só de lembrar me dá água na boca.

Depois da refeição deu uma preguiça…. mas fomos conhecer tudo por lá: um tanque com pirarucus, casas de abelhas jandaíra (que não tem ferrão) e o hotel de selva. O hotel era bem grande, mas completamente rústico: cobertura de palha, camas com mosquiteiro, uma área para fogueiras, um grande refeitório central. Me convidaram a conhecer a Cachoeira do Palmari e me entusiasmei, pois nesta região nunca tinha visto uma única queda. Lá me enfurnei pelo mato, em companhia do meu guia e de uma filha. Após cerca de 20 minutos de trilha eis que aparece… uma cachoeira enorme? Não. Uma cachoeira média? Não. Uma corredeira que mal batia no meu joelho. Na região onde tudo é plano e os rios são gigantes preguiçosos, tudo que é um pouco mais veloz e estreito logo é chamado de cachoeira. O que achei? “Bonitinho… feio, mas arrumadinho.”

Voltamos sob um lindo arco-íris e fui então conhecer a metrópole atalaiense, onde vivem cerca de de cinco mil pessoas espremidos entre o rio e a mata. Assim como em BC é difícil dizer quem é índio, peruano ou ribeirinho, para mim todos tem a mesma cara (bem mais parecidos do que um monte de japoneses… estes eu já aprendi a diferenciar bem!). A cidade é conhecida como a cidade dos jambos. Tem tanto jambo que quando a cidade foi emancipada e o prefeito foi chamado para levar a planta da cidade para Manaus, ao invés de levar o mapa com as ruas levou um pé de jambo! Bem, para quem aprecia o fruto, não há nem como passar fome por lá.


Perguntei como surgiu um lugar tão longe de tudo. A região foi criada como um entreposto comercial, conhecido como Remate (nome local para loja de troca) de Males. A partir daí com o crescimento acabou se tornando autônoma, embora dependa de verba federal para conseguir sobreviver minimamente. Sua posição estratégica na fronteira peruana é o que lhe dá maior importância. Na região está uma das maiores reservas indígenas do Brasil, a do Vale do Javari, onde quatro mil índios se espalham em um território quase do tamanho do Rio de Janeiro. Dizem que lá existem além dos índios não contactados uma base americana, onde chegam jatos direto dos EUA. É a história que toda a população comenta, mas na verdade, ninguém sabe, ninguém viu. Talvez isso explique outra história, a dos “índios brancos” que existem na região.

Será um índio branco?

Não, é o Enfermeiro Celso, amigo que trabalhou com os Marubo. Os adornos são feitos com conchinhas, inúmeras. Os adornos femininos atravessam os septos nasais.

Também fui visitar a Casa do Índio, onde ficam os que vêm doentes das aldeias. Esta estrutura se justifica porque muitas aldeias ficam distantes, algumas estão a uma distância de até oito dias de barco. Pegue o seu atlas do Brasil, procure a região norte, acima do Acre e localize no meio do “nada” alguns rios… é de lá os índios viajam para Atalaia quando tem problemas de saúde. Na casa os índios ficam hospedados em malocas onde armam suas redes, divididos por aldeias, uma para cada etnia. Na área central um grande chapéu-de-palha (estrutura de madeira com cobertura) abriga um fogão de chão, onde nos domingos eles próprios preparam seu almoço com peixe assado.

Eu queria fotografar tudo, mas sabendo que estava em um ambiente de saúde, não fiquei a vontade. Até que de repente um indígena se vira para nós e pergunta: “Alguém tem máquina fotográfica?” Não podia perder a oportunidade e saquei a minha. Atendi vários pedidos de fotos e consegui um registro, ainda que não completo, de como é o CASAI e seus moradores. Eles adoravam se ver na tela da digital e acho que parecia suficiente para eles.

Este é o rapaz, Mayoruna que me pediu a foto

Foto da Lídia

Para finalizar fui conhecer o Balneário do Tampinha, o local onde a tradicional família Atalaiense se reúne para o peixão com cerveja de fim de semana. O local é uma grande estrutura flutuante em um remanso do rio, com um bar e algumas mesas cobertas, onde no momento apenas uma pessoa dormia sentada, curtindo a ressaca da noite anterior. A cena era realmente digna de nosso país de segundo mundo e nada convidativo ao banho: o banheiro do bar (muito higiênico e com separação por sexo) desaguava no próprio remanso, próximo de onde um homem tratava os peixes que seriam servidos no bar e de onde as crianças brincavam. Brasil, mostra sua cara! Se eu banhei? Bem, não deixei nem minha sombra cair dentro d’água, afinal, até para ela o risco era enorme.


Fico aqui, com muita saudades de todos,
Altamiro

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1 comentário Adicione o seu

  1. Sam disse:

    Nossa, vc falou ai no açai fresco com peixe frito, to com água na boca.
    Estou curtindo muito suas IA, nosso BRASIL é mesmo muito grande, existem coisas e lugares q sequer imaginamos q existiam.

    Abraços…

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