Impressões Fluminenses 32

Sei que continuam curiosos em relação aos índios, mas envio este segundo relato de terras fluminenses para não ficar muito desatualizado…

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Rio 40º. Cidade maravilha, purgatório da beleza e do caos. Ano Novo e lá estava eu desembarcando na cidade, apesar de tudo, sempre maravilhosa.
Meu destino, como a maioria de vocês imagina, não é a terra das “casas brancas” (do tupi: carioca = casa branca, devido ao fato das casas dos portugueses serem pintadas de cal, sendo por isso brancas), mas sim o Paraíso. Não sabe onde é o Paraíso? Vem comigo que eu mostro, pois tirando o chimarrão, o niteroiense (que na verdade é “papa-goiaba”) é o gaúcho do Estado do Rio. Orgulhoso de sua terra, convencido e até, não há como negar, um pouco arrogante pelo privilégio de morar de frente para a Baía de Guanabara.
Nesse cenário eu cresci. Jogando bola na praia, teimando em só olhar para o Cristo e o Pão de Açúcar. Não tão magnetizado por sua beleza, mas com medo de que, olhando para o outro lado, vislumbrasse uma toalha vermelha pendurada na janela da casa da vovó, sinal que era hora de voltar para casa.
Depois, morar distante fez com que este cenário se tornasse ainda mais belo e encantador em minhas memórias. A baía ficou mais limpa, o sol descia como uma bola de fogo anunciando o fim do dia com mais vigor e o gênio Niemeyer aterrisou um disco voador na beira desta paisagem. Só ele ousaria imaginar uma montanha de concreto e fazê-la suave o suficiente para compor com o mar, as ilhas e montanhas a capa de qualquer revista de viagens de bom gosto.
Assim, morando longe descobri gostar ainda mais do mar e da baía da Guanabara do que poderia imaginar. É engraçado como no dia-a-dia nos acostumamos a visões e sensações que só se tornam realmente nítidas quando estamos distantes. Por isso o brasileiro se torna mais patriota longe do seu país. Não tenho vontade de voltar a morar por lá, mas a cidade de minha juventude nunca deixará de morar em mim.
Acho que não conseguirei mais me habituar ao caos do trânsito, as precauções com a violência e a sensação de insegurança. Sinto o mesmo medo que muita gente tem do Rio… mas uma coisa é incontestável… Como é bonita a cidade! E pude comprovar isso por levar a sério o ditado: “não basta ser pai, tem que participar”.
@Isto porque fui acompanhar minha filha e as amigas que iam saltar de parapente com o Tião, padrasto de uma delas, do alto do Parque da Cidade. Como o local é muito bonito, não poderia perder a oportunidade de fotografar o vôo da minha filhota, bem mais corajosa do que eu. A visão é daquelas privilegiadas que só os niteroienses têm. De um lado a Baía de Guanabara, emoldurada pelo Pão de Açúcar, Corcovado e pelas pequenas reentrâncias de São Francisco, Charitas e Icaraí. Do outro lado lagoas, morros onde a mata atlântica insiste em viver e o recorte das praias de Piratininga e Camboinhas. Morram de inveja cariocas, que insistem em dizer que a vista mais bonita de Niterói é a vista do Rio. É verdade, mas é um privilégio que nem eles têm. Nada poderia ser mais paradisíaco do que esta vista em um dia de sol. Aproveitei para fotografar muito, curtindo o momento zen e o local especial. Tudo ia bem até que eu escuto o Tião falar… “agora é o pai da Elga”. Ops! Isto não estava no script. Ao menos não no meu script. Mas como amarelar depois que minha filha havia saltado? Não teve jeito… capacete, cadeirinha, pista, corrida e… espaço… Agora, longe do momento posso confessar que saltei de olho fechado… mas que no momento que abri fiquei encantado com a beleza do mundo. Eu que já gostava de voar de monomotor achei o parapente fantástico. Seguro, silencioso, bonito, ou melhor, lindo, ainda mais quando se tem o privilégio de voar em um lugar como este. Agradeço a Elga e ao Tião pela oportunidade.
@Lá do alto pude perceber que, embora a cidade já esteja cheia de gente, as ruas abarrotadas de carro e todo mundo começando a se sentir sem espaço, não param de subir prédios em Niterói. Geograficamente é uma das menores cidades do estado, e ao mesmo tempo um dos municípios mais populosos. Até Charitas, antes preservada, hoje tem mais de dez prédios em construção. E cada morador vai ter o seu carro… como andar nas ruas? Por isso que sempre digo que em Niterói, após cinco minutos com o carro parado o motorista comenta “acho que está engarrafando…”. Voltar pra morar? Nunca.


Mas Niterói tem outras coisas interessantes e únicas. Uma eu já comentei em um Impressões antiga: o Bloco das Piranhas em 31 de dezembro, e não no carnaval. Este ano bateu recorde de público, parando a praia por várias horas e muitíssimo organizado – segundo alguns “bofes” que me contaram. Só me contaram, porque eu não fui… risos… Haviam grupos vestidos de mulher maravilha, outras(os?) de noiva, de Minie, de camisola, de fada, mas o grande sucesso foi sem dúvida as do Bofe de Elite. Tanto entusiasmo de homem em se vestir de mulher nunca me cheira bem. E também não cheira bem o Bloco de Papai Noel, no dia 24 de dezembro. Além de transformarem a festa cristã em grande comércio, em Niterói existe uma tradição de se encontrarem exatamente em baixo do prédio da minha avó (este ano foi na quadra ao lado, graças ao Bom Velhinho e a Tropa de Elite que baixou por lá, com muitos soldados, ainda que não tantos quanto os (as) que estavam no Bloco das Piranhas) para ouvir funk em alto volume, beber muito, brigar, beber mais, beber um pouco mais e beber muito mais. Ninguém dança, ninguém sacode… só bebe e usa um gorro de papai Noel, além, é claro, de estragar o Natal da vizinhança. Após os tiros nos últimos anos, este ano a repressão foi grande, e o barulho menor, embora a uma quadra de distância e nove andares acima, ainda se ouvia funk em alto volume.
Deixando de lado esta confusão aproveitei para subir a serra. Já escrevi sobre este programa, mas é que gosto muuuuito da Serra dos Órgãos. Não é a toa que os índios lhe davam o nome de Tupamboeira, que significa “contas de Deus” E como a região além de divina é majestosa, era para lá que nossos imperadores iam passar férias, daí vindo o nome das duas principais cidades serranas: Petrópolis, cidade de Pedro II e Teresópolis, cidade de sua esposa Teresa. Como quem foi rei nunca perde a majestade, Petrópolis se mantém cidade imperial graças às inúmeras casas da época que estão espalhadas por todo centro. No meio de tantas casas enormes, destaca-se uma miúda, ao pé de um morro. Projetada por seu dono, é simples e bem típica de seu gênio: original, prática e moderna. Para chegar, sobe-se por uma escada onde cada degrau só pode ser pisado com o pé certo (na verdade são “meio-degraus”), de forma a se entrar na casa somente com o pé direito. No primeiro piso somente uma pequena sala e uma escada, levando ao segundo andar, que nada mais é do que um jirau onde há um baú que a noite virava cama e um pequeno banheiro. Na área externa, seu morador, Santos Dumont observava as estrelas através de um telescópio instalado no telhado.
Para os claustrofóbicos, a pedida é o Museu Imperial. Aquilo que era viver bem! Quarto de música, quarto de visitas, quarto de estudo, quarto das crianças, quarto de costura… berço de ouro, coroa de ouro, cetro de ouro, o ouro que não foi parar nas mãos dos ingleses está por ali, e tudo muito bem arrumado e organizado. Para manter o piso de madeira o mais próximo do original, não se pode pisar de sapatos, e se anda, ou melhor, se desliza de pantufas o tempo todo, o que faz com que todo o tempo vejamos crianças literalmente voando pelo museu e pousando de bunda no chão.
Já contei muito do Rio… na próxima volto a falar dos índios e vou contar minha participação nos Jogos Indígenas do Pará.
Fui…voando….
Altamiro

Legenda das Fotos:

1 – 31 de dezembro. Piranhas se dirigindo para a “concentação”. Tirada do alto do prédio da vovó. Carros parados, latinha de cerveja e homens vestidos de mulher… Tô fora!

2 – MAC – Museu de Arte Contemporânea – Projeto de Oscar Niemeyer, tendo ao fundo a Ilha de Boa Viagem e o Rio de Janeiro

3 – Casa de Santos Dumont. Petrópolis

4 – Vista das lagoas e do Mar. É tudo Niterói!!

5 – Eu com o Tião, me preparando para voar.

6 – Eu voando. Praia de Charitas, Pico São Luiz e do outro lado… Pão de Açúcar, Pedra da Gávea, Corcovado e Pico da Tijuca… Preciso falar algo?

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