Impressões Paulivenses de Carnaval 23

06 de março de 2006

Inicio comentando que após o IA 22 minha caixa postal ficou lotada.
Assim, se alguém enviou algum comentário, peço que envie novamente,
pois estou arquivando a todos e não recebi nenhum referente a este
número.

Chico Olímpio é um amazonense sui generis. Primeiro porque é muito mais
alto do que a média. Delgado, fala ligeira, nem de perto lembra o
cidadão típico desta região. Além disso, Chico é um dos maiores “faz-tudos” que conheci por aqui e mesmo “por aí”. Com 3 filhos e seus
vinte e poucos anos poderia estar como tantos outros simplesmente
“correndo atrás do prejuízo”, mas não é este o caso. Chico foi
escoteiro, líder de pastoral da juventude, antigo presidente do
conselho de direitos da criança e do adolescente. Hoje faz o último
ano de ciências políticas na Universidade do Estado do Amazonas e é
Conselheiro Tutelar eleito. Uma vez conversando comigo me disse que
quando mais novo fazia shows dublando Michael Jackson. Além disso é
apresentador de shows (já vi apresentando concurso de miss, show de
rock, festa da padroeira a até sorteio de bingo), puxador da quadrilha
campeão das festanças juninas de 2005, membro da diretoria do Boi
Mangangá, locutor da Rádio Nova Onda (eu dividia o meu programa com
ele) e recentemente eleito para Secretário Geral da Liga Atlética de
Benjamin Constant. Impressionado com isso? Eu também achava que era
impossível que fizesse mais, até que esta semana ouvi…
“O Senhor já tem bloco Doutor?” . Como ainda espero viajar no Carnaval, respondi
logo que não, e declinei contando meus planos. Bem, Chico não perdeu
tempo e já lançou: “Pois é! Se ficar o senhor já sabe que vai ter que
sair no Bloco dos Dálmatas. Sou Coordenador Geral”. Caramba!!
Este cara realmente me impressiona. Ainda não sei como arranjou tempo
de fazer seus filhos!! : )

Pois meus amigos sabem como o Carnaval para mim é um feriado
sagrado. Época de estar longe de tudo que cheira carnaval, parece
carnaval, soa carnaval e lembra Carnaval. O que quero é o teto da
barraca e a luz das estrelas, um bom banho de rio e, de preferência
uma boa montanha para avistar, ao lado dos amigos (família incluída) é
claro. Aqui já vi que o pessoal é empolgado. Como não tem muito
“para onde ir”, o pessoal se diverte. No sábado já teve o primeiro
“grito de carnaval”. Enquanto eu invejava a Elga assistindo Rolling
Stones eu assisti por minutos eternos o Sensasamba ou algo parecido. E
neste tempo, após os convites do “Os Dálmatas”, já fui convidado para
o “Bloco do Soro” (da Saúde), o “Bloco da Cohabam” (bairro), o “Bloco
da UFAM”, o “Bloco do Projac”… Caramba! Tenho que fugir daqui a
qualquer preço!!!!!!!!

O avião de Tabatinga a Manaus custa cerca de 510,00. Mais 30 de
catraia e 2 de mototaxi, dá para notar que a conta é meio salgada,
não? Então a opção é pegar o barco e descer durante 3 dias a 150,00
com todas as refeições incluídas. Eu não me aventuro a ficar tanto
tempo em um barco, ainda mais depois da minha experiência no barco
peruano, mas… para não ficar “em casa” no Carnaval, cá estou eu no
Manoel Monteiro, pronto para viajar a São Paulo de Olivença (SPO), cidade vizinha mais próxima e portanto com tarifa mais barata.
Segundo a dona do barco, uma senhora loura com sotaque gaúcho, o barco
sai as 7:00h em ponto, assim o atraso de dez minutos é bem tolerável.
Prefiro ir embaixo, onde há menos rede e mais silêncio. No segundo
andar, além de lotado, com direito a todos os gringos que sempre estão
presentes nestes barcos, ainda temos televisão e som. Como não deu
tempo de comer antes de sair, armo a rede e subo para perguntar pela
janta. Dei sorte, pois logo que cheguei a copeira toca a sineta e fui
o terceiro dos vinte a entrar no refeitório fechado e refrigerado.
Sopa de carne, bem grossa, com pão e água. Gostoso. Ali as regras são
claras, ninguém pode comer de chapéu, é proibido. Difícil foi explicar
pro loirinho que falava uma língua que não consegui identificar,
embora fizesse depois os questionamentos – obviamente não
compreendidos pela copeira – em inglês.
Depois da janta desci e fiquei lendo até as nove, quando todas as
luzes são apagadas. Fui interrompido no sono por chegarmos na Base
Anzol. Esta é uma base da polícia federal, que faz às vezes de
Alfândega e combate às drogas. Dizem que quase sempre prendem alguém, mas desta vez eu não vi, ao menos não no meu andar. A inspeção dura
mais de uma hora e com isso nosso barco só chegou no destino ás sete
horas, debaixo de muita chuva.

SPO é a cidade mais antiga da região, para orgulho dos paulivenses
(quem nasce na cidade). Diferente de BC onde tudo é plano, aqui são
ladeiras e mais ladeiras. Gostei muito, pois as planíces de BC chegam
a cansar. É legal chegar no alto de um morro e ver o rio lá de cima.

Fico na casa de um amigo, o enfermeiro Samuel, e após o almoço vamos
andar pela cidade. Andamos duas horas, e gostei muito. Sossego, pouco
som de Carnaval, crianças brincando e várias belas vistas do Solimões,
sonolento, pardo e majestoso. O hospital é menor do que o do BC e três
médicos se dividem no pronto-socorro os sete dias por semana. Trabalho
duro.

O verde é mais presente, e então tenho a esperança que vou poder
ver algum bicho. Por enquanto só um mico de cheiro da vizinha do
Samuel.

Bom é de frutas: já comi castanha recém colhida, mari preto e
amarelo e tucumã, além das bananas de sempre!! Ah! E tem o cupuí, um
pequeno cupuaçu, ainda mais gostoso. Daqui não se sai para lugar
nenhum de carro. Estradas? Nem pensar, somente para o aeroporto. As
estradas mesmo são os rios, especialmente o Solimões, que conduz para
cima para BC e para baixo em direção a Manaus.

No segundo dia de SPO fui a um banho. Parece que toda cidade fez o
mesmo. Na verdade nada mais é do que um igarapé onde muita gente se
banha e muitos mais ficam sob chapéus de palha, assando carne e
tomando cerveja. O maior e mais disputado vira palco de carnaval e
animados cantores tentam fazer com que todos dancem sem parar. O
ambiente é legal com muitas crianças e jovens brincando e não vi
confusão alguma. Acho que quando alguém “esquentava” ia tomar um banho
no rio e estava tudo bem novamente.

Mais um dia e estou de volta as caminhadas. Fomos a comunidade de São
Sebastião, ribeirinha, em uma curva do Solimões. Foi bem legal, embora
a interação com o pessoal local não tenha sido muito grande, pois
chegamos logo após o almoço. Na volta cerca de duas horas de caminhada
me sentindo feliz por estar na Amazônia, ainda que com toda a saudade
que sinto. Talvez seja a primeira vez que me sentino meio da maior
floresta do mundo, sensação que ainda não tinha tido. Ainda bem que
consegui fugir um pouco neste Carnaval. Só ficaram faltando mesmo as
grandes árvores e os animais, mas… tudo bem. Para compensar pela
manhã havia conseguido fotografar o mico-de-cheiro da vizinha e um
grande e delicioso biribá. Ela também cria tartarugas, tracajás e um
jacaré, mas com o tempo chuvoso a turma não sai da água e a visita não
deu em nada.

Último dia. Acompanhei Samuel em seu programa Momento Saúde e dei uma
palhinha falando sobre gravidez na adolescência. Depois fui fotografar
os blocos do carnaval paulivense. Uma festa bem bonita em uma rua
lotadíssima. Achei que só conseguiria fotografar cabeças, mas quando
viram a máquina os que controlavam o público falaram: “para fotografar
pode entrar”. Lá fui eu me lembrando do Jun fotografando na Espanha!
Foram mais de 300 fotos coloridas. A maior parte das pessoas que
desfila e dança é de crianças, mas é muito divertido. O capricho, o
entusiasmo e a disposição do União São João, Sensação e Sem
Compromisso são envolventes. As fotos ficaram bem legais, e acho que
dá para partilhar um pouquinho de como foi. Pela noite, voltei a praça
para ver o movimento, até que caiu uma chuva enorme que me mandou para
casa de alma lavada.

Para voltar estou indo no Dona Regina, uma lancha, e não um barco
tradicional. Lancha grande, com 160 cadeiras reclináveis (bem mais
confortáveis do que de avião) e um pouco mais caro. Pago 80,00 na
volta contra 70 que pagaria em um barco. A diferença está que em vez
das cerca de 18 horas, viajarei somente por 5 horas nos cerca de 250
km fluviais, rio acima, que separam a sede de SPO e BC. O barco é
relativamente luxuoso, com ar condicionado, bom lanche, mas… sem lugares definidos. Isto é ruim, pois quando entro parece haver gente nas três fileiras. Diferente do que acontece
nos ônibus ou nos aviões, nas paradas ninguém se ajeita para dar lugar
aos que embarcam, mas se espalham ainda mais, de forma que seus bancos
vizinhos não sejam escolhidos e de forma que possam continuar deitados
e espalhados. Por fim pego um lugar ao fundo, longe, sem janela, de
onde escrevo agora.

A viagem é bonita com o rio ora alargando, ora
estreitando, mas sempre grandioso com suas águas marrons. Passamos
ocasionalmente por pequenas comunidades que me fazem refletir ao mesmo
tempo sobre como o mundo é enorme, como nós somos pequenos e como a
vida pode ser tão diferente. Aquilo seria o inferno para alguns, mas
nos sorrisos das crianças me parece o paraíso. De qualquer forma é a
primeira vez que me vejo mais perto da mata de dia, pois quando viajei
para SPO era noite, e não pude ver quase nada. Finalmente a Amazônia
com seus igarapés e alagados a minha frente! Exatamente no dia que
completo um ano de aventura no Norte do Brasil.

Beijos, carinho e Paz,

Altamiro

ps – Algumas coisas realmente são um mistério… Quantos Altamiros
vocês conhecem? Eu, além de neto de Altamiro, estudei com um Altamiro
na faculdade (lembram Glória e Anderson?), convivi com um Altamiro na
Polivet e em SPO fui hospedado em uma casa vizinha de outro Altamiro.
Somos muitos!!!

LEGENDA DAS FOTOS:
difícil escolher as fotos desta vez. Só com o Carnaval de multiplas
cores foram mais de 300… Assim escolhi algumas mais significativas,
outras ficarão para o IA 24, já no prelo!
a) frutas: castanha, tucumã e umari (preto e amarelo)
b) eu no Dona Regina, o barco da volta. Vejam o conforto das
poltronas. Tem até travesseirinho!
c) cupuí
d) carnaval – são cinco fotos para mostrar as cores: vejam o detalhe
do destaque… Na terra das aves as penas são de papel!!
e) Manuel Monteiro – barco em que viajei, dormindo, naturalmente, nas
redes como a do pessoal
f) como diria o Alex no nosso velho tempo de Sale: “quais, quais,
quais, quaisquarais…” Que farofa no Igarapé Ajaratuba. Na falta de
rio transparente, qualquer um é bom para banho.
g) igreja de São Paulo de Olivença

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