Impressões Peruanas 5

Ontem, ao meio dia, soube que estaria representando a cidade em uma reunião sobre vacinação infantil para a região amazônica. A reunião será no Peru, em Caballo Cocha, distante cerca de 12 horas de barco. Assim saio às 14h, chego lá de madrugada, amanhã tem a reunião e faço a viagem de volta à noite. Será cansativo, mas uma oportunidade de treinar o espanhol e conhecer mais um lugar. Nada mal para quem adora “marcar X”, né Lu?
Estou na casa do enfermeiro Mário, em Islândia. No domingo vim passear aqui, dar um “pulinho no exterior”. Islândia deveria se chamar Veneza, pois TODAS as casas estão em palafitas bem altas e as casas são ligadas por passarelas de madeira. A única passarela de cimento é a que leva ao hospital (24 horas) e à escola, e que acaba em um grande lago com frangos d’água, marrecas e urubus. Aliás, os urubus estão por todo lado e disputam com patos e galinhas o lixo e as sobras jogadas das casas simplesmente para “fora” ou para “baixo”. Como em baixo alaga, as pessoas andam de canoa em meio a tudo isto. Banhos, pelo que entendi, quase todos tomam nos rios. As casas melhores tem passarelas particulares levando à sua “casinha”, também de palafitas. De lá, o mecanismo de descarga é simplesmente para “baixo”, onde se misturam os dejetos com o rio onde crianças brincam e patos comem.
O quente em Islandia é a noite, que nem me atreverei a tentar conhecer…. A quantidade de casas noturnas e travestis é enorme e talvez por isso, em um estudo recente, 30% das mulheres fazendo pré-natal apresentavam DST. A comida aqui é famosa. Se você não se abalar com a precariedade das instalações e da higiene pouco confiável, o ceviche tem sua fama travessando fronteiras. O prato é feito com peixe cru, curtido no limão e é muito gostoso. Para beber as opções vão da “pinga” de mandioca (aipim, macaxeira) que ainda não aprendi o nome até a famosa Inka-Cola, com cor e cara de pinho sol, mas que tem gosto de bala de tutti-frutti.
Não parece pinho-sol?
Islândia tem a maior madeireira legal da região, onde trabalham inúmeros brasileiros. Se em nosso país a derrubada é ilegal, aqui não é, e pude presenciar os estoques de árvores boiando na água à espera de seu beneficiamento. Aqui também há muitos Israelitas. Não são de forma alguma quem vocês pensam. São membros de uma seita que vem migrando desde os andes e esperam um dia chegar em Israel. Todos com cara de índios e as mulheres sempre com longos véus verdes, azuis ou rosas que lhes cobrem as cabeças. Os homens normalmente usam o cabelo preso em longas tranças negras.
Agora estou no barco Dom Diego, de dois andares e que nos levará a reunião. Como não sabia, não trouxe minha “maca” (rede) e o Mário, enfermeiro peruano saiu correndo tentar arrumar uma. Pouco a pouco o barco vai enchendo ao mesmo tempo que vai sendo limpo. Aliás… Não sei se aqui pode-se dizer que algo foi ou é limpo. Até o enfermeiro toma seu sacolé (chup-chup, geladinho, e que aqui é chamado de “curiche”) e joga pela janela do barco. O mesmo destino tem o lixo do cesto que um menino esvazia sem cerimônia pela janela do barco. Pobre Rio Solimões…
A viagem foi boa e fomos conversando em espanhol. Só era difícil quando me contava piadas, mas para ser solidário, eu sempre ria no final delas (imagine se estivesse contando histórias tristes…risos). De madrugada aconteceu algo que não imaginei que fosse acontecer: senti frio. Em mais de um mês usei meias poucas vezes e nunca mangas compridas ou colchas. O problema era o vento do rio, que desapareceu já ao desembarcarmos às cinco da manhã. Em compensação, se eu pela primeira vez senti um leve frio, o povo estava cheio de cobertas de lã, como se estivesse seguindo a alguma expedição para os Andes. Já ouvi gente dizendo em Benjamin que dorme de edredon toda noite…
No porto conheci os “moto-taxis” daqui, os moto-carros que sâo como os tuc-tucs asiáticos, motos que puxam charretes.
Passamos no hospital e me trouxeram à “Hospedaje Elsita II”, talvez o pior hotel que já tenha ficado. Não imaginava nada muito melhor e queria realmente ver algo assim… Vocês já achavam que eu havia enlouquecido, né?! Agora tem certeza…risos. Na verdade o quarto não é tão pequeno e tem até banheiro privativo, mas…. Uma goteira abaixo da pia pinga sem parar, não há áqua quente ou papel higiênico. A toalha é pouco maior que uma de rosto, não há lençol além do que cobre o colchão, há mofo por todo lado e as janelas tem “cortinas” feitas de lençol. A que está na janela ao lado da cama dá para a rua, então, fica claro e barulhento bem cedo (para falar a verdade, começou a clarear logo que cheguei). Ainda tem uma mesa, um banquinho manco, da altura exata para um anão baixo e um ventilador que pela idade deve ter sido do primeiro modelo que minha avó possuiu. Legal é que, diferente de BC, escuto MUITAS aves que não consigo identificar e isso é algo que realmente eu gosto, ainda que por vezes o canto seja abafado pelas risadas das crianças ou escarradas de algum adulto.
Não disse que era ruim?
REFLEXÕES DA VIAGEM DE VOLTA
Se você entrar em um barco amazônico lembre sempre que não tem hora para sair. Nosso barco saiu uma hora da manhã de Caballo Cocha. Destino: Islandia. Islandia? Quase… O previsto era chegar lá no máximo ao meio dia, mas ele simplesmente desviou em um canal para levar algumas coisas à comunidade de San Francisco. Você sabia que existia esta comunidade? Eu não… e nem o comandante do barco que, por isso mesmo ia devagar para que as pessoas embarcadas perguntassem aos ribeirinhos que passavam em suas canoas. Depois de algum tempo procurando em vão a comunidade chegamos ao nada. E era ali. Agora era só esperar descarregar as “algumas coisas”. Bem, já havia visto um grande cartaz daquele que os politicos usam em suas obras, mas não havia percebido as tábuas, vergalhões e 300 sacos de cimento que estavam no andar de baixo (o barco tem 3 andares, os dois de cima para passageiros). Sob chuva, tombadilho molhado, não foi o que chamaria de operação ligeira… : < (
Até este momento a viagem estava boa. Como estava bem cansado, logo que entrei apaguei na rede e só acordei às sete em ponto quando o alto-falante, bem em cima de mim começou a tocar bem alto a cuemba peruana. Te gusta el ritmo? Eu gostaria de ouvir, mas às sete da manhã e com os chiados da caixa estourada, o que mais queria era jogá-la pela janela. Isso não foi tudo. Meus “vizinhos de trás” de rede, além de muitas crianças ainda tinham um miquinho bem pequeno de estimação, que, acordando assustado resolveu assobiar… Também no meu ouvido, o que me fez por instantes defensor da caça e do “mico a passarinho”. Felizmente o homem tem uma incrivel capacidade de adaptação e após cerca de 15 à 20 minutos já havia voltado a dormir. Quando pensava em sonhar descobri mais uma vez que maior que a capacidade de adaptação é a capacidade de torturar alguém. Assim às 7h30min, pontualmente, comecei a ouvir gritos que superavam a música e o macaco: “Desayuno! Desayuno!” Se ao menos o infeliz se contentasse só em gritar… Mas ia sacudindo as redes uma por uma, como se tentasse colocar para fora, ao mesmo tempo que sua assistente empurrava um copo com algo boiando no leite e um pão com uma suspeitíssima mortadela que nem me atrevi a pegar. Bem, quando escrevi o texto acima achava que já tinha visto de tudo nesta viagem, mas descobri que não. Isto porque são 15h55min e desde 11h27min estamos parados em Santa Rosa, ainda Peru, sob um calor de cozer ovo.
Para a diversão: vídeos. Já estava passando um interminável “soco e tapas” dublado em espanhol, quase preto e branco, de tão velho, para uma assistência de 3 ou 4 pessoas. Depois rolou campeonato de vale-tudo e o salão encheu. A notícia correu rápido e muitas crianças do pueblo, que nem luz tem, vieram assistir. Não dava nem para sair da rede, pois se saisse quando voltasse já teriam uns quatro ou cinco “chicos” sobre ela. Acha que está boa a desgraça? Tem mais… O barco parou porque após chover a noite toda, havia saído o sol. E o sol daqui quando sai é sempre SOL forte. E assim o comandante aproveitou para pintar a proa do barco. Então lá estava eu, de frente para um campeonato de vale-tudo, junto de cerca de 100 peruanos entusiasmados, com cheiro de tinta misturado ao suor do cozimento de nossos corpos na panela de pressão que era o barco… MA-RA-VI-LHA…
Consegui ler TODO “A Fantástica Volta ao Mundo” do Zeca Camargo, somente nesta viagem. Mas as 400 páginas do livro acabaram no meio de um filme de Jack Chan. Gosto dele, um palhaço moderno, e pude me divertir com a alegria das crianças a cada movimento ou careta engraçada. A alegria dos chiquitos é universal, o mesmo que veríamos estampado em crianças de qualquer nacionalidade vendo o filme. Foi o único consolo nesta tarde abafada e, definitivamente chata. Só para registro: voltamos a navegar às 16h07min, mas … como dizem aqui… “putcha”… o barco parou para embarcar açúcar que chega em um barquinho. Mais 10minutos. Como diria em Niterói “Caraca! Hijos de las…”.
Nosso barco desvia mais uma vez para encontrar o Gran Diego no meio do rio para algumas pessoas trocarem de barco. Nestes cerca de mais 10 minutos tenho uma notícia muuuuito boa. O tal do Gran Diego estava VOLTANDO de Islandia. Chegou depois do nosso em Caballo Cocha, nos passou quando procurávamos San Francisco, não demorou em Santa Rosa e às 12h30min havia chegado em Islândia… Às vezes acho que deveria acreditar na Lei de Murphy. Ah… Uma observação. Da mesma forma que na Bolívia, como já havia visto, NENHUMA criança chora, independente de ser dia, noite, frio, calor ou terem fome. O macaco e o periquito, que depois embarcou, fazem mais barulho que elas.
Bem, vou deixar vocês com algumas fotos… o Oro, refrigerante que é um clone do Inka-Cola, eu na rede pronto para dormir na volta de Caballo Cocha, os moto-carros e o magnífico banheiro cinco estrelas do hotel onde fiquei. Semana que vem conto mais de Benjamin… já tenho boas e novas histórias, e vou contar inclusive um pouco mais de nossos postos de gasolina, que muita gente escreveu dizendo que adorou.
Abraços, Altamiro
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1 comentário Adicione o seu

  1. Elis disse:

    Jesus, que aperto em companheiro…barulho, calor, humidade, sujeira…que nojo…Ufa…além disso tava magrinho de dar dó….como diz meu filho,,,SINISTRO!!!! e você ainda percebe o canto dos passarinhos e se alegra com as crianças……só vc..rsrsrsrsr

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