Escotismo Amazônico

Se o escotismo é universal em seu método, não o é em seu programa. As variáveis são maiores do que aquelas encontradas para as modalidades do mar e do ar. As maiores diferenças existem no cotidiano de grupos dos rincões mais distantes e ermos do país, onde descobrimos um escotismo repleto de dificuldades, que luta para sobreviver com a mesma vontade que o homem luta para vencer a mata e a distância.

Assim, qual não foi minha surpresa quando, em 2005, pouco após chegar a Benjamin Constant – cidade de pouco mais de 15 mil pessoas; distante 3 horas de Boeing e mais uma hora de voadeira da capital amazonense ou 7 dias rio acima de recreio, o lento e tradicional barco amazônico – descobri a existência de dois grupos escoteiros.

A descoberta veio em um final de tarde, na prefeitura, quando um caboclo forte, de sorriso simpático me interpelou: “Você que é o Chefe Altamiro?” A interrogativa, deixando de lado ou “Doutor”, mas respeitosa e ingênua, como é a região em relação a quem vem de fora, veio acompanhado da mão esquerda. Um forte aperto com a canhota fez iniciar-se uma verdadeira e real amizade escoteira, daquelas que só compreende quem tem no peito a flor-de-lis e o ideal de B-P. Aquele era o Jacaré, chefe de um dos grupos, o GE Marcelo Maia. Jacaré me apresentou então ao Professor Germano, chefe do GE Marechal Rondon, ambos exercendo o cargo de Chefe de Grupo, posição extinta há mais de uma década no Escotismo brasileiro. E isso nada mais era do que a “ponta do iceberg” (ou a “base da sumaúma, para falarmos em realidade amazônica) do Escotismo local, repleto de grupos ignorados pela própria UEB.

            Por lá, em 2005, ainda se pensava que a UEB estava sediada em Brasília. Em débito com os registros, há anos os grupos locais praticavam um escotismo “clandestino”, onde a obscuridade, embora contrariasse o segundo artigo de nossa Lei, garantia o Escotismo para quem não podia pagar as taxas exigidas pela UEB.

            Dá para entender. Em um local onde a média familiar é pouco acima de um salário-mínimo e a maioria das pessoas, ou é funcionário público – caso dos dois “chefes de grupo” – ou labuta no rio ou na roça para conseguir a sua subsistência como pescador ou agricultor, como ter condições para pagar o registro anual?

            Vejam como estas dificuldades são evidentes. O Marechal Rondon outrora se chamava General Rondon. Sem condições de se registrar, após alguns anos alegou que o grupo havia fechado e conseguiu novo registro com o novo nome, que ainda mantém. Os grupos de Benjamin Constant e mais outros que havia descoberto: Remate de Males em Atalaia do Norte, Duque de Caxias em São Paulo de Olivença e Manoel Souza em Tabatinga eram todos grupos que viviam graças a esforços de alguns abnegados, e sem eles acabariam mesmo fechando, porque, ignorados pela UEB, não poderiam receber nenhum tipo de auxílio. E pior, pela distância e pelo alto custo, não havia como a Região do Amazonas deslocar uma equipe que, ainda que em um final de semana por ano, pudesse manter acesa a chama escoteira e fortalecesse os vínculos institucionais.

            Já está difícil? Mas tem mais: ao contrário do que a maioria das pessoas imagina, não há fartura de locais para acampar. Vivendo em uma terra de fronteiras, ampla presença indígena, florestas e caminho do tráfico internacional, obter um bom local para acampamento é muito difícil. Não se pode entrar nas áreas militares, as fronteiras são fechadas, as áreas indígenas são de acesso restrito e a mata… bem, a mata é a mata e basta dizer que quando estava lá, foi abatida uma onça de 110 kg há 4 km do centro da cidade. Aventurar-se nos sertões mais distantes é perigoso pelos animais como pela chance de se deparar com alguma pista de pouso clandestina. Moleza?

            Finalmente sobram os sítios de um ou outro amigo, que não são tantos e acabam se tornando “figurinhas carimbadas” que tanto evitamos em nossas tropas e lá são a única opção. Estes são todos próximos a cidade, beirando algum igarapé e se chega a pé (até porque não há ônibus por lá pelo simples fato de haver uma única estrada, de 28 km que liga dois municípios vizinhos, e foi finalizada em 2007). A proximidade da água, ao mesmo tempo que facilita o suprimento, também facilita o ataque dos piuns, carapanãs (mosquitos) e mutucas. Só de noite? Que nada, pium pica de dia e carapanã a noite. Fazem rodízio. Pensou na proteção de barracas? Pois não há. Todos dormem em redes, um ou outro mais diligente monta um tapiri, um pequeno abrigo onde convive com, além dos insetos citados, com formiguinhas, formigas e formigonas, as anabolizadas tucandiras. E se chover? Não há esta dúvida, pois sempre chove. E podem haver duas opções. Caso a chuva não cesse e o igarapé transborde alagando a cozinha e o campo de jogos, a opção é voltar para a cidade, sob a chuva mesmo, reiniciando a atividade alguns dias depois. Se a chuva é curta, algo como uma ou duas horas, permanecem em um abrigo coberto de palha trançada com a “impermeável” arte ribeirinha onde cantam e brincam. As músicas? O repertório é pequeno, basicamente o nacional de herança do Trio Iraquitã: Polenta, Árvore da Montanha, Cuco e Espírito de B-P, cantados com a mesma disposição que se canta no Sul.

            Os acampamentos são duradouros, permanecendo assim uma a duas semanas. Se alguém tem algum problema, volta a cidade, resolve e retorna. Viagens a outros municípios custam, só de barco, pelo menos 20,00, o que por si só já impossibilita a ida de muita gente.

Para angariar fundos para uma ou outra atividade, organizam-se quermesses e rifas em praça pública (já comprei uma rifa de “meia” galinha, doada por Dona Marcinete, por 25 centavos!!!). E com estes poucos recursos levantados são feitos os presentes para o dia das mães, compra-se velas para a Missa do Dia do Escoteiro, com direito a procissão e tudo mais e confeccionam-se cartazes para a Marcha da Paz.

            Aos poucos conseguimos ajudar alguns grupo a se estruturarem, promovendo suas Assembléias de Grupos, elegendo suas diretorias nos moldes atuais na UEB. O grupo de idealistas foi ampliado com a chegada do Sargento Alessandro Cordeiro, que logo mobilizou Tabatinga para a fundação de um novo grupo, o GE Alto Solimões, que recebeu vários jovens e escotistas indígenas, da etnia Tikuna que já se mobilizam para fundar um grupo na maior aldeia do Brasil, chamada Belém do Solimões, onde vivem cinco mil índios.

            Toda essa movimentação com que a UEB-AM, dirigida com competência e entusiasmo pela Chefe Edna Dinelli, conseguisse os recursos, e finalmente esta distante região vai receber um curso preliminar oficial. Temos que integrar nossos irmãos e pensar em como a DEN pode efetivamente auxiliar estes grupos, facilitando seu registro e promovendo a capacitação de seus líderes, pois, como diz um de nossos brados: “um por todos e todos por um”.

14 comentários Adicione o seu

  1. Daucy Monteiro de Souza disse:

    Meu querido Altamiro!
    Como você é precioso tanto quanto os bravos companheiros de escotismo do Amazonas.
    Parabéns pelo belo trabalho que fazes!
    Sua fã incondicional,
    Daucy

  2. Prezado irmão Altamiro,
    Parabenizo pelo teor deste artigo, foi muito feliz em divulgar as nossas dificuldades. Sou Diretor Presidente do Grupo Escoteiro Alto Solimões, fundado pelo Sargento Alessandro Cordeiro, que por ser militar teve mudar de cidade. Tentei de todas as formas registrar o grupo, mas as dificuldades são grandes, mesmo tendo uma boa equipe de chefes, não conseguimos nos articuklar para efetuar o pagamento o registro anual até o momento. Fico em constante contato com os Grupos de Tabatinga, o Waldex Diretor Presidente do Grupo Escoteiro Raimundo Cavalcante de Moraes se foi, agora não sei se vão continuar, o grupo se mantem com 40 integrantes. Na comunidade de Belém do Solimões, o grupo se manten e o nome se chama Grupo Escoteiro Guardião de Selva, com Diretor Presidente, Pr Marildo, que é ticuna, com 250 jovens ticuna. Na comunidade de Umariaçú tem um novo grupo se iniciando, com o nome de Grupo Escoteiro Magüta, seu Diretor Presidente, Sr. André, que é ticuna, com efetivo de 200 jovens ticuna.
    Meu grupo tem 35 jovens.
    E se com a força, apoio e oração de todos e pensamentos positivos vamos fazer o Registro 2009.
    Conto com a ajuda de pessoas interessada em ajudar estes grupos de Tabatinga, Benjamim Constant e Atalaia do Norte, onde todos nós nos encontramos no Primeiro Curso Preliminar e foi muito marcante e a Região Amazonas está de Parabéns. Queremos que aqui seja o Pólo Alto Solimoes, para podermos ajudar a todos, se possivel a UEB deve interiorizar o Escotismos e apoios.
    Aperto de canhota, SAPS!

    Edney da Cunha Samias

  3. Grupo Escoteiro Alto Solimões.
    Sede: rua 13 de maio, Brilhante, Nas dependencias da Igreja Divino Espirito Santo. Cep 69.640-000, Tabatinga-AM.

    Endereço para correspondencia: Beco Marechal Rondon, 5, Portobras, Cep 69640-000, Tabatinga-Am.
    Diretor Presidente: Edney da Cunha Samias
    E-mail: edney_cunha@hotmail.com
    Celular: (97) 9184-0718.
    Se houver interesse em ajudar ou mostrar outros meios de contribuir para a regularização dos Grupos de Tabatinga, Atalaia do Norte e Benjamim Constant, entre em contato.
    Na certeza que logo teremos o Pólo Escoteiro Alto Solmões.

  4. João Pedro de Lira Ribeiro disse:

    Muito bom essa matéria, sou escoteiro aqui em Manaus, espero ver vocês aí do alto solimões num acampamento regional! vocês impressionantemente mesmo com adversidade deixam acesa a chama do Escotismo nos corações de várias pessoas.
    Sempre Alerta

  5. Rui sampaio disse:

    fui escoteiro 5 anos aqui em ituiutaba vivo aqui desde a idade de 2 anos mais nasicir em manaus tenho parentes ai fui o ano passado visitar manaus morei um ano quando menino fico contente de de enviar esses alguma coisa pra voces aqui onde fui escoteiro ainda existe e o grupo escoteiro padre anchieta gosto muito do escotismos parabens voces vao conseguir meu nome rui nei sampaio alves meu telefone34-99932350 sempre alerta

  6. Rui sampaio disse:

    um abraço de um escoteiro que conhece o amazonas mais que mora em minas gerais que deus proteja todos voces

  7. mishael willian disse:

    muito bom essa matéria eu sou escoteiro aqui de barreirinha do 11°am grupo escoteiro andirá somos muito felizes por esta participando desse grupo maravilhoso isso mudou minha vida completamente hoje sou um cidadão de bem sempre alerta para todos vocês.

  8. Elina Oliveira Ruiz disse:

    ola sou escoteira do grupo de escoteiro Marechal Rondon do alto solimoes e gosto muito do escotismo

  9. Parabéns pelo excelente texto! Para mim a historia desses grupos deve parte da historia do escotismo mundial pelo exemplo de espirito de escotismo desses bravos escoteiros e chefes de região tão bonita do Brasil. fiquei emocionado com a narração!

  10. Companheiros Escotistas,hoje no Brasil existe AEBP – Associação Escoteira Baden-Powell
    Pessoa jurídica de direito privado e sem fins lucrativos, da educação escoteira, não formal, ecológica, cultural, beneficente e filantrópica cuja duração é por tempo indeterminado, com sede e foro na cidade de Joinville/SC, podendo abrir filiais em outras cidades do Brasil, fundada em 03 de março de 2007, destinada a prática do escotismo em todo território brasileiro, baseado na proposta de Lord Robert Sthefeson Smith Baden-Powell of Giwell no “Scouting for Boys”, edição original e filiada a WFIS – Federação Mundial dos Escoteiros Independentes.

  11. Colei erra o comentário anteiror. Companheiros veja o video dos 12 anos dos Escoteiros Florestais aqui de alagoas:

  12. Mario Greggio disse:

    Altamiro
    Mas é assim mesmo. A saída é a adoção imediata do escotismo independente.
    Afinal o escotismo é praticado pelos grupos escoteiros. Melhor ainda: pelas seções escoteiras.
    Apenas eles merecem nosso maior respeito e atenção. O tal de escotismo para adultos é apenas um clube caríssimo e arrogante.
    Um abraço liberal, responsável e trabalhador
    Mario

  13. Everson Sanchez Parra disse:

    Saudações Escoteiras, Bravo povo amazonico,
    Como vocês são muitos os Grupos Escoteiros que estão praticando o Verdadeiro Escotismo de Raiz.
    No Mundo temos varias instituições Escoteiras, assim hoje o Brasil, também congrega Associações de Nível Nacional, nos Estados temos as novas Ligas e Federações Escoteiras, legalmente reconhecidas pela legislação Brasileira e Mundial.
    O espirito escoteiro trascente de associações, afinal o metodo escvoteiro e universal e aberto, assim como B.P. ofereceu a todos.
    O Escotismo para Rapazes, deu a direção, e hoje o escotismo esta presente em todo os povos, assim como os Grupos Indigenas, aqui em MT, estamos trabalhando para oferecer um modelo de Modalidade que e a de Escoteiros Indigenas.
    Parabens, e estamos a disposição para contribuir e oferecer o suporte que desejarem.

    SAPS o MP!

    Everson Sanchez
    Escoteiro Chefe Nacional “AEBP”
    e-mail: ch_everson@yahoo.com.br

  14. thais veronica disse:

    o grupo escoteiro e muito bom sou de barreirinha am faco parte do grupo escoteiro andira agente faz muitas coisas legais aprende muitas coisas fazemos atividades nas florestas no rio afinal a muito divertido thcauuuuu

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